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“Meninos da caverna”

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

Os olhos do mundo inteiro se voltaram para o resgate dramático dos doze meninos e do técnico de futebol que ficaram presos em uma caverna na Tailândia. O ato heróico dos mergulhadores que encontraram os garotos, toda mobilização para resgatá-los com vida, a morte de um dos socorristas, a angústia das famílias e a expectativa de todos; tudo isso e muito mais gerou comoção nos quatro cantos da Terra. Todos nós ficamos sensibilizados e aliviados com o desfecho da história.

Os meninos de 11 a 17 anos e o jovem treinador estão agora se recuperando em um hospital de seu país. Precisam de cuidados médicos e de uma alimentação adequada. Os riscos de uma contaminação com doenças de cavernas ainda não estão descartados e até mesmo o encontro com os pais e familiares precisa ser bem planejado. Alguns dizem que eles nasceram de novo e o processo de retomada à vida normal não pode ter pressa.

Os meninos da Tailândia estão sendo chamados de “Meninos da Caverna” e o nome dado nos convida à reflexão. As águas torrenciais caíram naquela região, como é comum nesta época do ano, e a caverna ficou alagada. A escuridão era total e os dias, de medo e pavor. O socorro chegou no limite da sobrevivência e a voz que veio das profundezas veio como alívio e esperança. Os “meninos da caverna” foram libertados, resgatados e sobreviveram. A história deles se tornou uma das histórias mais impressionantes que se têm notícia nesta vida.

É bem provável que no futuro o resgate dos meninos da caverna sirva de roteiro para um filme, um documentário ou coisa parecida. O fato é que a história em si já traz a sua lição e prega, por assim dizer, o seu sermão. Tristemente temos que constatar que pelo mundo inteiro há meninos e meninas que estão presos no que podemos chamar de caverna da escuridão. E aqui podemos falar sobre o abandono, o desprezo, a exploração e a desestruturação moral, espiritual e familiar. Meninos e meninas da caverna presos pelas ideologias, massacrados pelas águas lamacentas da imoralidade, desnutridos de espiritualidade, envoltos pelo manto escuro do vazio sem Deus.

Um dos mergulhadores que achou os meninos e o técnico de futebol lhes disse: “Nós somos só dois. Mas muita gente está vindo”. Com isso ele os tranquilizou mostrando também que seria necessário o esforço conjunto de muitos e que o resgate não seria a tarefa de poucos. Assim, podemos dizer que o resgate dos meninos e meninas da “caverna” precisa vir também de várias direções: da família, da igreja, das escolas e de todas as pessoas de bem que desejam vê-los soltos, livres e contemplando a luz da verdadeira liberdade e do real ponto de vista.

Cavernas, literais ou não, são lugares de sombras e de imagens distorcidas. Meninos e meninas não são feitos para viverem nelas. Há dados alarmantes hoje que revelam o grande número de jovens e adolescentes que se suicidam, outros que se envolvem em drogas e crimes os mais horrendos. Há meninos e meninas vivendo na fronteira do desespero, conduzidos por sistemas ideológicos que pregam a liberdade, mas que, na verdade, escravizam, acorrentam, sufocam, oprimem e desumanizam.

Meninos e meninas precisam de luz e não de trevas, precisam do “ar” que os faça respirar para Deus e não de conceitos que sufocam e matam. E aqui aproveitamos mais um momento que envolveu o resgate na Tailândia. Um dos socorristas que havia levado suprimentos e oxigênio para o grupo, ele mesmo teria ficado sem ar suficiente. Ele não resistiu e morreu na operação de socorro. Integrantes da equipe de resgate relataram que a morte não seria em vão e serviria para aumentar o propósito da missão. Neste ponto é importante lembrarmos-nos do que fez o Senhor Jesus por nós. Ele deu a sua vida para que por Ele você e eu pudéssemos viver (João 3.16; 10.10).

Que o gesto de Jesus na cruz nos encoraje a seguir em nossa missão de salvar os “meninos da caverna”. Que Deus tenha misericórdia destes e que, ao conhecerem a luz de Cristo e o ar que vem do céu, eles sejam libertados de toda e qualquer escuridão.

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG).

Os entulhos

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

Entulho normalmente é o que sobra de uma construção ou o que resta de uma demolição. O entulho pode ser usado para aterrar, nivelar um terreno ou até mesmo para entupir uma vala, um buraco ou uma depressão. Entulhos amontoados num terreno baldio podem servir de esconderijo para animais peçonhentos, podem oferecer ambiente propício para ajuntar água da chuva e se tornar um criadouro do mosquito da dengue.

Entulho é lixo, e, ainda que possa ser utilizado de maneira adequada, frequentemente se pensa nele como algo negativo e prejudicial. Foi assim que os filisteus lá no passado fizeram uso dele. Maldosamente eles utilizaram do entulho para entupir os poços de água que Abraão, pai de Isaque, havia cavado para dessedentar a sua sede e de seu povo também (Gn 26.18). Sabemos que água no deserto é algo essencial e tal atitude revelou grande maldade e mesquinhez.

  Isaque precisava de água limpa e pura, tratava-se de uma questão de vida ou morte. Ele não cavou novos poços, pois isso demandaria tempo e grande esforço. Ele foi onde sabia que a água tinha sido achada um dia. Ele mesmo, quando criança, havia bebido dessa água. Ela estava ali, só, que agora, entulhada pelos filisteus. Os servos de Isaque desentulharam os poços que haviam sido cavados por Abraão e Isaque, seu filho, lhes deu os mesmos nomes que o seu pai os havia dado.

Dr. Martin Lloyd-Jones, em seu livro “Avivamento”, usa essa lição dos poços de Isaque para falar da necessidade de um avivamento espiritual na vida da igreja hoje. Para ele, a igreja precisa de “água”. Ele usa a figura da água no sentido da vida no Espírito (Jo 7.38,39). Não é hora de fazer novas experiências, de contratar especialistas em “poços de água”. Para ele, e eu concordo com isso, a igreja precisa voltar onde, no passado, a água já fluiu abundantemente.

  Acompanhando o raciocínio do autor do livro mencionado acima, é de extrema importância retirar o “entulho” que depositaram sobre esses “poços” do passado. Há pelo menos dois tipos de entulhos que precisam ser removidos com urgência. O primeiro deles é o entulho do erro doutrinário, do desvio da mensagem pura do evangelho de Cristo Jesus. Muitos filisteus modernos entulharam sobre a doutrina da igreja, com mensagens de autoajuda, com a teologia da prosperidade, com quebra de maldições, com a confissão positiva, com o teísmo aberto, com o legalismo exacerbado e escravizador.

Além disso, não menos prejudicial, os “poços de água” foram e continuam sendo entulhados pelo relaxamento moral, pela postura antiética, pela falta de santidade entre aqueles que se dizem crentes. Há muito lixo sobre os poços de água pura. Precisamos remover o entulho e esse é um esforço conjunto e extremamente necessário. Antes de qualquer coisa, essa é a nossa maior necessidade.

É preciso dizer, com prioridade, que a primeira fonte da água que precisa ser desimpedida do entulho é aquela que está no nosso interior, pois é de lá que o Espírito flui. Em outras palavras, é preciso começar de cada um de nós. Às vezes a tendência é dizer que a igreja precisa “cavar novos poços”, mas se esquece de que a “fonte” de cada crente precisa estar limpa e livre de todo e qualquer “entulho”. Os poços podem até ser cavados, mas se não limparmos a nós mesmos nada disso nos aproveitará.

Precisamos retirar os entulhos que através dos anos foram se acumulando sobre as nossas vidas. Não podemos tolerar sobre nós nenhuma doutrina que nos desvie da verdade da Palavra de Deus e não podemos alimentar nenhum compromisso moral que nos desvie da moral cristã. Cada um de nós precisa preservar o Evangelho e todos nós precisamos de mais honestidade, mais verdade em nossos atos, mais temor a Deus, mais comportamento exemplar em casa, no trabalho e nos negócios. Que Deus nos dê forças para retirarmos tais entulhos.

* Célio Teixeira Júnior é pastor da  Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG).

O que vai dentro d’alma

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

A alma não é apenas o princípio espiritual do homem concebido, separável do corpo. A alma é a sede de afetos, dos sentimentos e das paixões. A alma esconde os segredos, agasalha os sonhos, abraça os desejos mais íntimos e alimenta as ambições legítimas ou não. A alma se abate, se perturba, se angustia, se revolta, pode se alegrar, se exultar e até mesmo louvar e adorar. Perder a alma é tragédia na certa, pois melhor seria, disse Jesus, perder o mundo ou a própria vida (Mt 16.26).

A alma é tesouro escondido. Ela é feita de emoções, mas é também moldada na forja dos valores que recebemos, do que os nossos olhos veem, do que a nossa mente apreende e do que acreditamos ou deixamos de acreditar. Os filósofos gregos davam à alma valor maior do que davam ao corpo e até acreditavam que ela existia antes mesmo do corpo ser formado. Embora rejeitando a pré-existência dela, acreditando na unicidade do homem, não defendendo a separação de corpo e alma, entendemos que é importante falar sobre ela e dizer do que vai dentro dela. Sim, do que vai dentro d’alma.

  Talvez seja importante dizer que, às vezes, nem mesmo quem a possui é capaz de entendê-la, compreendê-la ou decifrá-la. A alma tem os seus próprios argumentos e ela pode nos fazer adoecer por completo: do fio de cabelo à planta-do-pé. Algumas vezes ela se parece com outro “eu” e não com o nosso próprio. Parece-nos que foi exatamente assim que Davi, rei de Israel, se sentiu um dia. Ele, por assim dizer, puxou um dedo de prosa com ela e lhe perguntou: “Por que estás abatida ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim?” (Sl 42.5).

A alma dele se tornou o seu algoz, tirou-lhe o sossego, furtou-lhe de seus sonhos tranquilos e roubou-lhe a paz. Você e eu nos parecemos com ele e há dias que gostaríamos de entender o que vai dentro d’alma. Quase que imploramos para ela nos dizer o que a perturba, o que a entristece, o que a faz abater dentro de nós. Quem sabe ela tenha buscado no passado as sombras de então, os traumas vividos ou as lembranças amargas. Ela pode se especializar ainda em antecipar as preocupações, em gerar ansiedade e produzir em nós o medo paralisante.

Como seria bom se pudéssemos mergulhar dentro d’alma. Se fosse possível isso acontecer, organizaríamos melhor os nossos anseios, trataríamos melhor dos nossos temores e redirecionaríamos, então, os nossos sonhos. Há quem diga ser especialista em alma e quem se julga dominá-la. Eu desconfio. Desconfio de quem diz ter todos os segredos, conhecer todas as técnicas, saber de todos os atalhos e decifrar todos os mistérios. Alma é coisa complicada, delicada e precisa ser bem tratada.

Apesar dessa desconfiança humana, eu diria que conheço alguém que conhece bem o que vai dentro d’alma. Só Ele é capaz de esquadrinhá-la com perfeição, de ajustá-la para a direção certa e de restaurá-la por completo sem que ela carregue para sempre os longos sulcos lavrados pelas circunstâncias da vida, pelas tristezas e pelos dissabores. Sim, Deus sabe o que vai dentro d’alma. Ele mesmo, em Seu Filho Jesus, possuiu uma alma sua, que se angustiou um dia, que se agitou dentro de Si, que se entristeceu pelo pecado que viu, que sofreu pela dor que sentiu, mas que, por fim, se alegrou ao ver o fruto do Seu trabalho e ao vê-lo, a sua alma ficou satisfeita (Is 53.11).

  Cristo, na verdade, nos reorganiza por inteiro. Ele aquieta a alma, cerca-a de alegres cantos de livramento, faz com que ela repouse na paz verdadeira e lhe concede a esperança que perdura. Com a Sua Palavra Ele mesmo restaura a alma. Com a Sua voz Ele a tranquiliza e com o Seu Espírito Ele a conforta. Creia nele e reflita também no que diz a bela letra desse hino antigo: “Você que se sente pequeno, dirija seus olhos a Deus; não deixe que sombras o envolvam, entregue sua vida a Deus. Deus sabe o que vai dentro d’alma, Deus ouve a oração suplicante, Deus vê sua angústia e o acalma, Deus faz de você um gigante…”

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG).

A arte de não encobrir

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

 A palavra “arte”, segundo o dicionário, se refere a capacidade que tem o ser humano de pôr em prática uma ideia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria. Não se trata apenas de domínio de expressão artística, mas da utilização de tal capacidade com vistas a um resultado específico. Além disso, a “arte” pode ser uma habilidade, um jeito especial. Ao falar, por exemplo, sobre a arte de não encobrir, estamos nos referindo a habilidade aprendida, desenvolvida e aplicada de assumirmos com responsabilidade as nossas ideias, obrigações e posturas, e não tentarmos hipocritamente esconder as nossas falhas.

A arte de não encobrir tem aspectos positivos e negativos. Não podemos encobrir o que é certo e nem o que é errado. Veja bem, não estou dizendo para sairmos por aí falando em alto e bom som sobre os defeitos dos outros, os erros do próximo e as mazelas do vizinho. Também não estou dizendo que devemos expor sem critério as nossas faltas e transgressões. O que não devemos, de forma alguma, é encobrir o erro no sentido de mascararmos as coisas erradas. E, por outro lado, não devemos também encobrir aquilo que positivamente deva ser transmitido.

Vamos à Palavra de Deus para entendermos a arte de não encobrir. Em primeiro lugar, falo negativamente. A Bíblia nos diz em Provérbios 28.13 o seguinte: “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia”. Claramente aprendemos no texto que a arte de não encobrir passa prioritariamente pelo nosso relacionamento com Deus. Aliás, o simples fato de tentar encobrir de Deus alguma falha, é pura tolice. Ele sonda até mesmo as nossas intenções mais íntimas e os propósitos do coração. Não encobrir de Deus a transgressão não é, portanto, tentar não informar ao Senhor algo que Ele não saiba, mas o reconhecimento do erro, o arrependimento e a demonstração de mudança de comportamento com a ajuda do próprio Deus.

Há também a arte de não encobrir o erro que passa pelos nossos relacionamentos interpessoais. Isso significa que não podemos tentar passar a ideia de que somos superiores aos outros, e pessoas sem falhas ou defeitos. Neste ponto, precisamos nos dispor, se necessário, a pedir perdão, voltar atrás e mudar o rumo de nossa caminhada.

Além desse aspecto negativo, a arte de não encobrir tem, também, algo positivo e igualmente necessário. Não devemos encobrir o que ouvimos e aprendemos da boa história do evangelho que chegou até nós pela Palavra que nos foi evangelizada e pelas lições de vida que os nossos pais (ou alguém no lugar deles) nos passaram: “O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não o encobriremos a seus filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do Senhor, e o seu poder, e as maravilhas que fez” (Sl 78.3,4). Não podemos encobrir das gerações vindouras e da atual também o que Deus tem feito na história. Não podemos encobrir, de forma alguma, o Evangelho de Jesus Cristo que é o poder de Deus para a salvação de todo o que crê. Não podemos encobrir os valores de nossa herança cristã e nem os princípios que regem a nossa vida, pautados pela ética e a moral do Reino de Deus.

O mundo precisa saber a que viemos e o que estamos fazendo aqui. Cada crente hoje precisa se revestir de coragem para se exercitar na arte de não encobrir. Precisamos assumir, sim, as nossas fragilidades, mas, sobretudo, é preciso ressaltar o poder da mensagem da cruz e jamais encobri-la de quem quer que seja.

Talvez seja importante ressaltar o fato de que vivemos hoje pressionados por uma nova moralidade a não exercitarmos a nossa arte de não encobrir. Isso é incrível! Todos têm o direito de não encobrir o que pensam,de “sair do armário”. Você e eu, cristãos convictos, não teríamos o nosso direito de expressar o que cremos? Temos, sim! E, se algum dia tentarem nos impedir, “antes importa obedecer a Deus do que aos homens”. Não encobrimos as nossas fraquezas, as reconhecemos com sinceridade; mas também não encobrimos o que Deus tem nos dado pela Sua Palavra, dela falamos com ousadia.

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)

Dúvida na aflição

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

Uma das definições da palavra aflição é que ela é uma espécie de tristeza pungente, uma dor aguda, ou uma angústia profunda que traz a ideia de estreiteza e de espaço reduzido. A pessoa aflita reduz o seu “espaço”, enxerga de forma limitada e tem uma enorme dificuldade de erguer os olhos e olhar para o horizonte. Sendo assim, não podemos acreditar nem em nós mesmos quando dizemos algo mergulhados na aflição. Exatamente porque, quando estamos aflitos, não conseguimos dimensionar o mundo à nossa volta e a saída à nossa frente.

O aflito diz na sua aflição: “Não há mais jeito, caiu doente o meu coração e não há quem me possa socorrer”. Ele se recusa a consolar e acaba por achar que o seu Deus é como uma miragem no deserto, como um “ribeiro ilusório” (Jr 15.18). O aflito diz na sua aflição: “Cessou a graça de Deus… caducou a sua promessa… reprimiu Ele as suas misericórdias” (Sl 77.7-9). Mesmo sendo sincero em tudo o que diz, não se pode acreditar no aflito e no que ele fala na sua aflição.

Sim, eu preciso duvidar até de mim mesmo quando estou aflito. Os meus olhos, nessa hora, precisam estar fitos em Deus e os meus ouvidos precisam estar atentos às promessas do Senhor, que ao contrário do que disse o salmista em sua aflição, nunca caducam. A aflição não é necessariamente sinal de fraqueza, mas uma demonstração de nossa mais pura e sincera humanidade. Somos humanos, por isso, propensos a passarmos pelo vale árido da aflição.Isso não significa que devemos alimentar essa condição. Pelo contrário, devemos fazer diante nós mesmos o exercício da dúvida.

Para que isso aconteça é preciso, em primeiro lugar, ter, por assim dizer, um dedo de proza com a nossa alma. É preciso perguntar para ela: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim?” (Sl 42.5a,11a). Devemos chamar a alma para um bate papo. Fazê-la se assentar no banquinho à nossa frente e perguntarmos para ela quais são as suas razões e qual o motivo de sua aflição. Não adianta querer fugir da própria alma. Mesmo porque, é impossível. O poeta reconheceu isso e disse: “Eu pensei fugir de mim, mas aonde eu ia eu estava. Quanto mais eu corria, mais para perto eu chegava”.

O outro passo é falar com firmeza para alma: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele meu auxílio e Deus meu” (Sl 42.5b,11b). Nesse dedo de proza com ela é preciso convencê-la dos cuidados do Senhor e de que até aqui Ele mesmo a tem ajudado.Também é preciso “trazer à memória o que pode dar esperança” (Lm 3.21). No Salmo 77, o mesmo que fala do que o salmista disse na sua aflição,temos a solução. O próprio servo de Deus, mudando o rumo da sua prosa,declarou: “Recordo os feitos do SENHOR, pois me lembro das tuas maravilhas. Considero também nas tuas obras todas e cogito dos teus prodígios” (vs.11,12).

Ao mesmo tempo que precisamos duvidar de nós mesmos e do que falamos na aflição, é preciso continuar afirmando que o Senhor nos ama e tem um propósito para cada um de nós. É preciso reafirmar o caminho de santidade de Deus e de que Ele é grande e não há outro igual (Sl 77.13). É preciso ouvir uma voz mais forte do que aquela que ouvimos de nós mesmos. É preciso ouvir a voz de Jesus, daquele que escolheu viver na Galileia dos gentios, no lugar que bem poderia ser chamado de “terra da aflição” (Mt 4.15,16). Ele disse: “Não temas, eu serei contigo”. Isto, sem dúvida alguma, acalma o aflito coração.

O que você, meu amigo, tem dito em sua aflição? Que não há saída? Que é o fim da linha? Que Deus se esqueceu de você? Que ninguém se importa com a sua situação? Que o jeito é desistir, desanimar e se entregar? Não acredite nisso, pois o momento pode ser de estreiteza. Fique firme no Senhor Jesus. Deixe que Ele tenha a última palavra. Creia e fique firme na fé. Ele também passou pela aflição. Ele até pediu ao Pai que, se fosse possível, o livrasse daquela hora. No entanto, Ele se submeteu e obedeceu. Então, Ele recebeu um nome que está acima de todo nome e Ele é poderoso para socorrer você agora. Sim, nele você pode confiar.

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG).

A nota fora do tom

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

Há bem mais de vinte anos, dez jovens participavam de uma gravação de um musical que estava sendo preparado para o Natal. Eles faziam parte de um conjunto de sinos chamado Musicata de Louvor. Cada sineiro controlava de dois a três sinos e cada sino correspondia a uma nota musical.

Um dos sineiros estava particularmente entediado com uma música em particular, pois ele tocava, na canção referida, apenas uma vez, uma nota só, a última, por sinal.Durante a gravação ele ficava ali assentado, aguardando a sua vez. O estúdio de gravação era simples, precário e não havia, naquele tempo, os recursos modernos de hoje. Por isso não se podia errar. Quando um erro acontecia tudo voltava ao início. Gravar uma música demorava horas e o musical, vários dias.

Aquela música, especialmente entediante para aquele tal sineiro, estava exigindo um esforço redobrado dos demais. A regente, com toda a sua capacidade e empenho, dava o melhor de si e exigia de todos uma perfeição quase que absoluta. Depois de horas, quando finalmente a gravação caminhava para o final e aproximava o momento da nota derradeira, orgulhosamente o jovem pegou o sino, se posicionou e, seguindo cuidadosamente a pauta em suas últimas linhas, tocou sem destemor.

Foi um arraso total. O ritmo estava certo, o tempo também, mas a nota estava trocada, foi a nota fora do tom. Não precisa nem dizer que todos o olharam com olhar fulminante e só não lhe expulsaram dali porque a gravação precisava continuar. Tenho a impressão que o tal sineiro aprendeu uma lição, ou, quem sabe, duas ou três. Mas uma delas, talvez a mais importante, foi a de que uma nota fora do tom pode estragar toda a melodia.

Acho que daria uma boa metáfora esta história. Uma metáfora que serve para a vida, mas que se aplica, particularmente, aos nossos relacionamentos como igreja do Senhor Jesus. Eu diria, então, que somos como uma linda partitura, escrita pelo divino artista. Somos também como um poema de uma nova criação (Ef 2.10). Este Artista deu a cada um de nós, por assim dizer, uma nota musical. Alguns controlam duas e até três, outros, no entanto, apenas uma.

O divino artista as dispôs assim. Em sua mente e coração, ele escreveu tudo com perfeita harmonia e sonora melodia. Lá de sua morada, ele escuta o som que tocamos aqui. Às vezes, a música é bela e harmoniosa, outras, no entanto, simplesmente não se ouve absolutamente nada ou apenas um barulho como “bronze que soa ou como o címbalo que retine” (1Co 13.1).

Há algumas razões para que isso aconteça. Há “sineiros” que são orgulhosos e cheios de si, se acham indispensáveis e não gostam de tocar uma nota só. Reclamam do autor da partitura e, simplesmente, não desejam cooperar. Estão preocupados com as regras, com as voltinhas minuciosas das notas em suas pautas e se esquecem de olhar para as próprias mãos. Falta-lhes o essencial: o amor.

Outros, só conseguem ouvir os erros e as falhas da música tocada, criticam os regentes e abandonam a gravação no meio. Gente assim sai procurando outros “estúdios” mais modernos, onde, na opinião deles, serão bem aceitos e valorizados. Afinal, para estes, o estúdio onde estavam, está ultrapassado e obsoleto e eles são bons demais para desperdiçarem seu talento ali.

Uma nota, apenas uma, fora do tom, estraga toda a melodia. Sendo assim, cada uma é importante e nenhuma pode ser desprezada. Todas precisam tocar juntas, pois uma depende da outra. Quando isso acontece, o divino artista se alegra e as notas também ficam satisfeitas.

Na verdade, a música é bela, não só para quem ouve, mas, principalmente, para quem toca. Além disso, é preciso sempre lembrar que os outros “estúdios” são iguais. O que fará sempre a diferença é a humildade de se dispor nas mãos daquele que pode fazer novas todas as coisas e o amor que permanece eternamente (leia 1Co 12 e 13).

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)

Sou moço

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

O salmista disse certa vez: “Fui moço e já, agora, sou velho”. Embora a ênfase do texto seja no amparo e no cuidado de Deus sobre a vida dos justos, o autor de tais palavras reconhece que teve uma época em sua vida em que foi moço e esse tempo era passado. Ele foi moço, sim, e viu muita coisa acontecer debaixo do sol. Só não viu um filho de Deus ser abandonado ouentregue à sua própria sorte.

O Senhor sempre esteve ao lado dos seus, e jamais pode ser dito que Ele algum dia os tenha desamparado. Mas nessas simples palavras, talvez seja importante lembrar que a vida é assim: passageira, transitória, momentânea e efêmera. Todos nós, mais cedo ou mais tarde, vamos dizer um dia: “Fui moço”. O tempo é implacável e os anos voam como um breve pensamento. O vigor da juventude é como uma neblina que aparece pela manhã e logo se dissipa e vai embora. “A juventude e a primavera da vida são vaidade” (Ec 11.10). Ao usar tal expressão, não me dirijo àqueles que já foram moços um dia, mas aos que podem dizer agora: “Sou moço” ou “Sou moça”. Estes são aqueles que estão na flor da idade, que fazem parte da mocidade, que já passaram pela infância, que ainda não chegaram aos cabelos brancos, aos anos pesados, à vida cansada e aos dias extenuantes. A mensagem é para quem vive entre os dezoito e os trinta e cinco anos, um pouco mais ou um pouco menos.

Esse é um tempo de construir os sonhos, de tomar decisões que refletem por toda vida, de traçar o rumo e de definir o norte. É normalmente durante esses anos que o jovem escolhe a sua profissão, se casa e arruma um emprego. Ainda que outra direção possa ser tomada depois, nada supera o que foi feito, decidido ou escolhido no tempo mencionado acima. Andam dizendo por aí que muitos estão “esticando” esse tempo, que há adolescentes com mais de vinte anos de idade e que há adultos que não querem abrir mão da juventude.

Não importa o limite de idade, mas, sim o que andam fazendo na mocidade. Fico feliz ao ver que há jovens solidários, responsáveis, engajados em seu tempo, politicamente corretos, ecologicamente preocupados, sonhadores e dedicados. Há jovens que são excelentes em seus empreendimentos, eficientes em seu trabalho, inteligentes em seus feitos e especialmente ágeis em seus raciocínios. A maioria é tecnologicamente antenada e possui perspicácia em suas decisões. Os jovens hoje são rápidos demais e estão conectados vinte e quatro horas por dia.

Sem dúvida alguma, há muito o que dizer de positivo dos moços e moças do nosso tempo.
No entanto, há preocupações também. Na cabeça de muitos, as imagens são desconexas, não tem sobrado tempo para a reflexão. A concentração anda prejudicada e a impaciência toma conta. Alguns, por isso, têm perdido a capacidade de curtir uma boa música de conteúdo e de letra profunda. Outros, também, por esta e outras razões, têm banalizado a arte e a poesia. Lamenta-se também o desprezo pela história passada e o desdém em relação ao que é antigo e conservador. O pior, no entanto, é o que anda acontecendo no campo da moral e da espiritualidade.

Há muitos moços e moças que vivem uma “liberdade” ilusória. Acreditam que o certo é determinado pela vontade própria, pela felicidade momentânea e pelo prazer imediato. Alguns têm caído no relativismo ético e, o que é mais trágico ainda, têm descartado Deus de suas vidas. Há um ateísmo prático, que deixa o Senhor Jesus de fora, que o exclui das decisões e que o elimina das horas quando se busca diversão e o entretenimento. Não são todos, é verdade. Mas são muitos. Há muitos moços e moças querendo ficar ricos, mas não ricos para com Deus. Há milhares que desejam dias melhores, mas não buscam um coração transformado pelo Evangelho de Cristo. Querem a paz, mas, contraditoriamente, abrem mão de se relacionarem  com o “Príncipe da Paz”.

Se você pode dizer: “sou moço (a)”, então lhe dou os parabéns. Curta a sua vida! Mas eu também lhe recomendo: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer” (Ec 12.1).

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)