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Preciso de Deus

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

Respeito quem diz que não precisa de Deus, mesmo que eu não concorde, pois acredito que todos precisam dele, mesmo que não saibam disso ou não admitam. Espero que os outros também respeitem a minha opinião: Eu preciso de Deus e não abro mão disso. Precisar de Deus não é fraqueza e nem suicídio da razão, mas, com certeza, um excelente projeto de vida. Precisar de Deus não me faz indolente, apático ou mórbido. Precisar de Deus não rebaixa quem sou, não me faz escravo da religião e nem ser contra a ciência, a filosofia, a arte e a poesia.

Eu preciso de Deus e nele eu me enxergo, descubro quem sou, reajusto os meus pensamentos, equilibro os meus sentimentos, venço o meu passado e descanso em relação ao meu futuro. Eu preciso de Deus, pois não precisar dele me faz orgulhoso, egoísta, adorador de mim mesmo, enclausurado no quarto escuro do acaso e entregue à minha própria sorte. Mas veja bem, eu não preciso de um Deus qualquer, não preciso de deus com letra minúscula, de um que seja subserviente, que esteja à mercê de minhas ordens, que não tenha vontade, propósito ou intenção. Eu preciso do Deus soberano, que Reina e se assenta no trono da sua glória.

  Eu preciso de Deus e quero me esforçar para convencer você de que você também precisa dele. Talvez o problema de muitos seja crer num Deus que não se pode ver, que aparentemente anda distante, indiferente ou alienado. Talvez alguém até possa dizer que na hora que mais precisou dele, Ele desapareceu, evaporou, tornou-se como uma miragem no deserto, como ribeiro ilusório e sumiu, foi para o além ou para terra do nunca. Estes não são problemas novos, mas antigos. Muitos, na história, já levantaram estas questões e já “brigaram” com Deus. Alguns tentaram e tentam até hoje encontrá-lo nos nichos fabricados e atribuem a Deus sentimentos humanos, assim como formas, gostos e preferências. Tentam, assim, resolver o problema da invisibilidade de Deus. Outros, tentando resolver o problema do mal, do silêncio do Altíssimo ou de Sua aparente indiferença, preferem matá-lo, descartá-lo e excluí-lo para sempre.

Nenhuma dessas soluções é viável, correta ou satisfatória. Deus não se deixa ver em imagem de escultura ou em qualquer outra criatura. Fazer isso é diminuir Deus. Deus pode até ser excluído da mente de alguém, mas Ele continua ali, revelado na criação, entronizado acima dos querubins, presente no coração e buscado por quem, como eu, precisa dele. Você pode não concordar comigo, mas não pode negar que muitos, que milhares e milhares de pessoas, de todos os tempos e lugares, de todas as idades, tribos e raças, vivem dependendo dele diuturnamente e não se arrependem disso de forma alguma. Sim, eu dependo de Deus não só porque fui criado por Ele e para Ele, mas porque Ele se deu a conhecer, Ele mostrou a sua “cara”, expôs o Seu “coração”, se revelou e mostrou para mim como Ele é.

Com certeza eu não tenho todas as respostas para todas as perguntas que existem debaixo do sol. Mas quem as tem? Por isso sou levado a olhar para o único lugar em que todas as coisas convergem. Onde o mal é chamado de mal, onde o amor é revelado de forma contundente e onde o meu pecado foi perdoado. Eu olho para a cruz de Jesus. Não se trata de um olhar meramente histórico ou para um simples crucifixo, mas para o seu real significado. Cristo resolveu tanto o problema da invisibilidade de Deus (pois ele é a imagem do Deus invisível- Cl 1.15), como o problema da aparente indiferença de Deus, (pois ele sabe o que é padecer e é poderoso para nos socorrer – Is 53.3; Lc 24.46; At 3.18).

  Eu preciso de Deus e sei que posso contar com Ele. Não há vaidade nisso, apenas fé e confiança. A prova cabal de tal confiança é graça e verdade e se baseia no fato de que Ele mesmo estava em Cristo reconciliando consigo mesmo todas as coisas (2Co 5.19). Experimente. Faça um teste. Vale a pena dizer como eu: preciso de Deus e preciso dele em Cristo Jesus!

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)

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“Perfume da história”

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

Um grande amigo, contador de casos, mineiro como eu e nascido no mesmo dia e mês, disse uma frase que me fez pensar e refletir um pouco. Estávamos caminhando pelo pátio de uma escola mais do que centenária, debaixo de árvores frondosas, ao lado de prédios antigos, ouvindo a doce melodia de um canário da terra que desferia o seu canto do alto de um flamboaiã, quando alertados por alguém, fazendo-nos lembrar do compromisso que tínhamos e da agenda a ser cumprida, esse meu amigo disse assim: “Não há como ter pressa em um lugar como este, onde se sente no ar o perfume da história”. Naquele instante eu respirei bem fundo e senti também o tal perfume. Lembrei-me da professora que me alfabetizara, dos colegas de infância e dos amigos de outrora. Viajei no tempo da saudade, senti o abraço da memória e me agasalhei nas boas lembranças do passado. Que perfume bom é o perfume da história!

  Talvez você também tenha tido uma experiência semelhante a essa. Há caminhos e lugares que têm cheiro de história. É bem verdade que alguns desses lugares cheiram a mofo, que a história pode ser malcheirosa e que a recordação que temos dela traz arrepio na alma e desejo incontido de apagá-la para sempre de nossa memória. Mas, por outro lado, sempre existe em nós um bom perfume guardado na mente e no coração. Esse perfume é sentido quando andamos por uma determinada rua de nossa cidade, quando entramos em uma casa antiga que pertenceu a alguém estimado que já partiu desta vida, quando passamos por uma estrada na fazenda do nosso tempo de infância ou quando voltamos à escola onde aprendemos as primeiras letras. Uma coisa é certa em tudo isso: o perfume bom da história sempre se relaciona com pessoas que fizeram de suas próprias vidas uma fragrância inesquecível.

  À luz de tudo isso eu diria então que nós temos dois pequenos desafios. O primeiro deles é o de não perdermos a capacidade de sentir o bom perfume. Digo isso porque há pessoas que parecem correr atrás do mau odor do passado. Não seja uma delas. Respire fundo, sinta o perfume da história e seja agradecido. Procure se lembrar das coisas boas da vida. Busque lá no fundo esse cheiro que está guardado em algum lugar. A Bíblia frequentemente nos conclama a agirmos assim. O profeta Jeremias, por exemplo, disse o seguinte: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança”. O apóstolo Paulo, ao escrever a sua carta a Timóteo, afirmou: “Estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que habitou em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti” (2Tm 1.4,5).

  O segundo desafio é o de sermos, como diz o apóstolo Paulo em outra ocasião, o “bom perfume de Cristo” (2Co 2.15). Aquele que age assim manifesta em todo lugar o bom cheiro do conhecimento de Deus. É claro que isso só é possível com a ajuda do próprio Cristo. Eu diria que Ele é a fonte do nosso perfume e nós o exalamos na medida de nossa comunhão com Ele. Quando cada um de nós manifesta esse aroma, fruto de um coração transformado pela graça de Cristo e comprometido com os valores do Seu reino, então a história à nossa volta se torna perfumada e a fragrância desse perfume atravessa o tempo e as estações. É aqui que precisamos pensar no futuro. Será que um dia ao passar pelos caminhos que nós caminhamos agora, os nossos filhos e netos vão sentir o bom cheiro do passado ou sentirão náuseas pela podridão malcheirosa deixada como herança maldita? Que seja somente o cheiro bom e nada mais.

Agradeço a Deus pela frase do meu amigo no pátio da escola. Como é importante sentir o tal perfume da história. Mas como é urgente também, como povo brasileiro, pensarmos em nosso país. Que nesta terra de tantos cheiros, prevaleça o bom perfume, o bom perfume para a história futura.

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)

IPB – 159 anos

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

No dia 12 de agosto a Igreja Presbiteriana do Brasil comemora 159 anos de sua história. Essa data marca a chegada do primeiro missionário presbiteriano em solo brasileiro. O jovem Ashbel Green Simonton, com 26 anos de idade, desembarcou no Rio de Janeiro no ano de 1859. O seu chamado para missões aconteceu depois de ouvir um sermão pregado por seu professor, o famoso teólogo Charles Hodge. Três anos depois, candidatou-se perante a Junta de Missões da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, citando o Brasil como campo de sua preferência.

O Rev. Alderi de Souza Matos, historiador da Igreja Presbiteriana do Brasil, nos dá a seguinte informação sobre o ministério de Simonton aqui em nossa Pátria: “Em abril de 1860, Simonton dirigiu o seu primeiro culto em português. Em janeiro de 1862, recebeu os primeiros conversos, sendo fundada a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro. No breve período em que viveu no Brasil, Simonton, auxiliado por alguns colegas, fundou o primeiro periódico evangélico do país (Imprensa Evangélica, 1864), criou o Presbitério do Rio de Janeiro (1865) e organizou um seminário (1867). O Rev. Ashbel Simonton morreu vitimado pela febre amarela aos 34 anos, em 1867 (sua esposa, Helen Murdoch, havia falecido três anos antes)”.

Logo depois de Simonton, vários outros missionários enviados pela Igreja Presbiteriana do Norte dos Estados Unidos (PCUSA), também chegaram ao Brasil. Um dos lemas destes primeiros missionários foi: “Ao lado de uma Igreja, uma Escola e um Hospital”. A Igreja Presbiteriana firmou as suas raízes em solo brasileiro e em pouco tempo várias regiões foram alcançadas pela pregação da fé reformada. A outra Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUS) também enviou missionários para o Brasil, concentrando as suas atenções principalmente no nordeste brasileiro. É preciso lembrar que o início do presbiterianismo aqui não foi fácil. Muitos foram perseguidos e hostilizados.

O Presidente do Supremo Concílio, Rev. Roberto Brasileiro, disse certa ocasião que não é fácil ser presbiteriano. Ele disse isso em virtude do zelo doutrinário da Igreja e também de sua postura ética e moral. A nossa igreja tem se mantido fiel às Escrituras Sagradas. O ensino da Bíblia é prioridade na IPB. A postura política da igreja também tem sido exemplar. A IPB prega a separação da Igreja e do Estado e defende a liberdade partidária de seus membros. Não há imposição para se filiar a um determinado partido. Não existe pressão dos seus pastores para que os membros votem neste ou naquele candidato.

A IPB, no entanto, não é alienada. Ela tem exercido a sua voz profética e tem se oferecido como intercessora em favor das autoridades de nosso país. O presbiterianismo no Brasil goza do respeito e apresso dos magistrados civis. E, graças a Deus, essa também tem sido a nossa realidade aqui na cidade de Lavras. O presbiterianismo chegou em nossa cidade há mais de 100 anos. Aqui, no início, ele foi recebido com desconfiança. No entanto, aos poucos, ele foi conquistando o apreço e admiração dos cidadãos lavrenses.

Ser presbiteriano no Brasil de hoje, ainda que não seja fácil, é uma honra e um privilégio. Isso não significa dizer que somos os únicos representantes do povo de Deus em nossa Nação. Há muitas outras igrejas sérias em nosso País, e muitas são nossas coirmãs. Também é preciso dizer que a IPB precisa melhorar sempre e isso, é claro, sem abrir mão de seus princípios e de sua doutrina fundamental: A suficiência das Escrituras Sagradas, a singularidade de Jesus Cristo, a salvação pela graça mediante a fé somente.

Talvez seja importante dizer que, ao comemorarmos os nossos 159 anos de organização da IPB, cada um de nós, presbiterianos do Brasil, temos uma responsabilidade grande: a de sermos continuadores dessa história. Devemos fazer isso com a nossa pregação e com o nosso testemunho cristão. E que o Senhor Jesus, Senhor da Igreja, nos ajude e nos ilumine.

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)

Força e coragem

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

Força e coragem parecem ser palavras de ordem na Bíblia. Deus as disse de forma especial a Josué substituto de Moisés como líder do povo de Deus: “Sê forte e corajoso, porque tu farás este povo herdar a terra que, sob juramento, prometi dar a seus pais. Tão somente sê forte e mui corajoso…” (Js 1.6,7). E ainda: “Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o SENHOR, teu Deus é contigo por onde quer que andares” (Js 1.9).Deus as disse também aos reis de Israel e Judá, aos sacerdotes, aos profetas e ao povo de forma geral. Destaco o encorajamento dado a Daniel pelo Senhor em ocasião propícia: “Não temas, homem muito amado! Paz seja contigo! Sê forte, sê forte. Ao falar ele comigo, fiquei fortalecido e disse: fala, meu senhor, pois me fortaleceste” (Dn 10.19).

Jesus usava com frequência uma expressão semelhante: “Tem bom ânimo”. Ele a disse para os enfermos antes de curá-los, disse para os aflitos antes de comunicar-lhes o alívio e disse para os discípulos antes dos desafios que haveriam de encontrar por toda caminhada deles no discipulado cristão: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo: eu venci o mundo” (Jo 16.33). Paulo também usou esta frase de força e encorajamento algumas vezes para ajudar aqueles que estavam à sua volta (At 27.22; 2Co 5.6) e ele mesmo a recebeu quando tanto precisava (2Tm 1.16). Mesmo o mais ousado dos filhos de Deus precisa, com frequência, de força e coragem.

  Embora força e coragem sejam desafios que nos são dados, eles não se encontram em nós mesmos, mas no Senhor que nos fortalece: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13). Força e coragem são exercícios de fé em Deus por meio de Cristo Jesus. Força e coragem são atributos do Espírito do Senhor que em nós habita: “Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação” (2Tm 1.7). Força e coragem são verdades alimentadas em nós pelas promessas de Deus que encontramos em Sua Palavra: “A minha alma, de tristeza, verte lágrimas; fortalece-me segundo a tua palavra. Afasta de mim o caminho da falsidade e favorece-me com a tua lei” (Sl 119.28,29). Essas promessas, diz a Bíblia, têm em Jesus o “sim” (2Co 1.20) e isso, com certeza, é motivo de força e coragem para a nossa alma, no enfrentamento de nossas lutas e nos desafios que surgem em nossa caminhada de vida.

O que nos cabe, portanto, é buscar em Deus a nossa força e nEle a nossa coragem. Além disso, força e coragem podem ser mutuamente alimentadas na igreja entre os filhos de Deus. Moisés encorajou Josué: “Chamou Moisés a Josué e lhe disse na presença de todo o Israel: Sê forte e corajoso; porque, com este povo, entrará na terra que o SENHOR, sob juramento, prometeu dar a teus pais; e tu os farás herdá-la” (Dt 31.7). Paulo recebeu ânimo de Onesíforo (2Tm 1.16) e todos nós somos exortados a nos consolar e nos animar mutuamente (Cl 3.16).

Talvez seja importante ressaltar que ânimo e coragem, embora pertençam ao Senhor e nEle se encontram, não são realidades que acontecem em nós automaticamente e nem ficam armazenadas num cantinho da alma para usufruirmos quando a necessidade chegar. Precisamos buscá-las todos os dias. O tempo também não nos fará necessariamente mais fortes e corajosos. Pelo contrário, o tempo pode se transformar em algoz e meter medo em nossos corações. Força e coragem precisam ser adquiridas, conservadas e alimentadas. Ora, se elas estão em Deus, então precisamos buscá-las na comunhão com o Senhor, nas benditas horas de oração, nos momentos sublimes de adoração e louvor, na leitura persistente da Palavra da Verdade, na comunhão da Igreja de Jesus, na prática da vida cristã e na evangelização.

Ninguém se torna forte e corajoso longe da comunhão do povo de Deus, longe do ambiente de culto, longe nas verdades do Senhor, longe da Bíblia e longe da oração. Portanto, meu querido irmão, não se enfraqueça, não se desencoraje, não se desanime estando longe de Deus e da Sua Igreja. Pelo contrário: tenha força e coragem. E que Deus abençoe sua vida.

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)

Esta vida é tudo o que existe?

Deus “pôs a eternidade no coração do homem”, diz o pregador (Ec 3.11). A ideia não é apenas que nós possuímos um conceito intelectual ou noção da eternidade, mas que temos um senso profundo de que nossa vida presente no mundo não é tudo o que existe; que existe um “para sempre” que torna esta vida mais significativa do que muitos ousam imaginar e que revela a vaidade de viver meramente pelas coisas do tempo presente.

Essa consciência da eternidade pertence ao que João Calvino chama de sensus divinitatis, e inevitavelmente orienta até mesmo o não-regenerado para o nosso futuro sem fim. Isso está evidente no fascínio da humanidade pela vida após a morte e pelo modo como falamos daquele que “partiu”. Também é aparente em quão religiosos têm sido os homens em todos os tempos, incluindo o nosso. O que acontece conosco após a morte é uma doutrina fundamental de quase todas as religiões, e é geralmente considerada decisiva para como devemos viver essa vida em preparação para o que se segue. Que a eternidade está em nossos corações é uma das razões pelas quais as pessoas que se dedicam a buscar o prazer temporal normalmente encontram a vida tão vazia. Como observa C.S. Lewis, nossos anseios vão mais fundo e alcançam mais longe e aspiram coisas muito mais altas do que qualquer coisa ao nosso alcance possa satisfazer. Viver para o presente exige que reprimamos ativamente esse sentimento interior de eternidade e neguemos nossos anseios (e aspirações) mais profundos, a fim de nos pacificarmos com outros muito mais superficiais.

Curiosamente, os antigos epicuristas identificaram o medo da morte como o maior obstáculo para uma vida dedicada aos prazeres temporais — isso constitui mais uma evidência do senso universal da eternidade (e expectativa de julgamento). Para se libertar do medo da morte, eles inventaram uma antropologia atomística na qual não somos mais que seres materiais sencientes. Sua única esperança, em outras palavras, era se a morte fosse realmente o nosso fim absoluto. Isso é mais ou menos onde muitos brasileiros estão hoje, e é um dos impulsionadores por trás da aceitação popular do naturalismo metafísico no ocidente secular. Se a morte não é o nosso fim absoluto, então devemos enfrentar a vaidade de qualquer vida que não seja vivida para a eternidade.

Não importa o quão vigorosamente alguém negue a vida após a morte, pois ainda a sensação de que há mais do que esta vida presente persiste obstinadamente — tão obstinadamente que Emanuel Kant, que negou que alguém pudesse saber de tal coisa, admitiu que devemos pelo menos acreditar em uma vida após a morte para podermos viver corretamente nesta vida. Kant estava parcialmente certo: a razão por si só “não pode” penetrar a eternidade para “descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Ec 3.11). E, no entanto, o senso de eternidade está gravado em nossos corações com a mesma firmeza da consciência de Deus e da obra da lei (Rm 1.19-22; 2.14-16). Nossas consciências, desejos, aspirações e medos nos traem.

Jesus não viveu em uma cultura pós-iluminista de agnósticos seculares, como muitos de nós, mas até mesmo o judaísmo do Segundo Templo teve seus saduceus que negavam a ressurreição. Suas negações, no entanto, não paralisaram Jesus de modo algum; ele simplesmente apontou como o pensamento de uma vida após a morte (e futura ressurreição) é algo básico para toda a estrutura da revelação bíblica e sugeriu que aqueles que negam isso “não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus” (Mc 12.18-27).

A suposição das Escrituras é também a suposição de Cristo. É impossível dar sentido à obra e ensino de sua vida sem pressupor a existência interminável do ser humano. Jesus não argumentou sobre o ponto e então pressionou as pessoas a enfrentarem o dilema no qual estão. Há apenas dois estados eternos: um glorioso reino de paz e justiça no qual os justos desfrutam plenamente de Deus no meio de uma nova e incorruptível criação, e um terrível lugar de escuridão exterior, inextinguível conflagração e ranger de dentes (Mt 8.11-12; 13.40-42, 49-50; 22.1-13; 24.36—25.46). Cristo falou desses dois estados em termos severos, fez advertências sóbrias e deu preciosas promessas fundamentadas em suas realidades.

Além disso, Jesus afirma ousadamente que o destino eterno de cada pessoa depende de alguém recebê-lo pela fé quando é oferecido a nós no evangelho ou de rejeitá-lo para ficar diante de Deus no julgamento final tendo apenas nossa consciência condenada como conselho. “Eu sou a ressurreição e a vida”, disse ele a Marta. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente” (Jo 11.25-26). Então Ele colocou a questão crucial diretamente para ela e para cada um de nós: “Crês isto?”.

Por: Bruce P. Baugus. © Ligonier Ministries. Website: ligonier.org. Original: Esta vida é tudo o que existe? © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Tradução: William Teixeira. Revisão: Camila Rebeca Teixeira.

O que vejo com meus olhos

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

Conta-se que certa vez uma conferencista foi convidada para proferir uma palestra sobre a crítica. O auditório estava superlotado e, após cumprimentar alguns presentes, ela se dirigiu para a parte central, colocou sobre a mesa que ali estava uma toalha de seda, algumas flores e um exemplar da Bíblia. Enfeitou a mesa com objetos de valor e espalhou pérolas que ela havia trazido em um pequeno embrulho. Todos a observavam com atenção e curiosidade. Ela abaixou, pegou um vidro que estava por perto e colocou dentro dele uma lagartixa. Muitos franziram a testa e a curiosidade aumentou ainda mais. Após alguns minutos a conferencista se dirigiu para a platéia e perguntou: “o que vocês estão vendo aqui?”

Uma voz lá do fundo disse: “um bicho horrível”. Outra, que estava à sua esquerda, declarou: “um bicho nojento”. Uma mulher que estava na primeira fileira exclamou: “tenho pavor de lagartixas!”. As outras respostas dadas naquele momento não foram muito diferentes, todos estavam tomados de espanto com aquele bicho sobre a mesa. Depois de alguns instantes, a convidada finalmente disse: “assim é o espírito da crítica negativa, meus amigos. Os senhores não enxergaram a toalha de seda, as flores e nem a Bíblia que eu coloquei sobre a mesa. Não viram as pérolas, somente a minúscula lagartixa”. Ela encerrou a palestra sem mais nada a acrescentar.

Fico imaginando se fizéssemos igualmente esta pergunta em nosso momento de culto e adoração! O que diriam as pessoas presentes estarem vendo nessa hora? O que você diria? Não quero explorar o olhar negativo, mas, sim, o positivo. Por isso, convido você a olhar para as realidades excelentes que estão presentes em nossos cultos de adoração. Olhe, em primeiro lugar, para a própria presença do Adorado. Deus se faz presente entre os seus adoradores e a presença dEle é santa e majestosa. Além disso, Ele mesmo manifesta entre nós a Sua maravilhosa graça, a graça da verdade e a verdade do perdão. Olhe para Deus com os olhos do coração, com a sua mente e devoção. Faça isso através de Seu Filho Jesus, o nosso único mediador. “Deus é Espírito e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24).

Olhe também para a sublimidade da Palavra do Evangelho que, como “luz que brilha em lugar tenebroso”, é capaz de iluminar o nosso interior e os recônditos de nosso ser. Olhe para o valor das Escrituras Sagradas porque elas podem tornar você sábio para salvação, elas podem livrar o seu coração do caminho errado, os seus pés das sendas tortuosas e a sua alma do inferno. Olhe para a Bíblia sobre o púlpito da sua igreja, não como um ornamento qualquer, mas como o tesouro da sabedoria de Deus. Olhe também e escute bem os hinos e cânticos de louvor. Não tape os seus ouvidos para as verdades inefáveis que eles revelam. Aprenda a ver com bons olhos cada parte do culto e cada momento sublime quando verdadeiramente Deus é exaltado.

Olhe ainda com os olhos de amor fraterno para o seu irmão, para aquele que partilha com você da mesma fé cristã, por quem o Filho de Deus também deu a sua vida e por quem Ele pagou um alto preço na cruz do calvário. Olhe com misericórdia o erro de seu irmão, sabendo que você também os tem. Olhe com paciência para aquele que é novo na fé, com respeito para o que é ancião e com toda firmeza possível para a sua própria vida e comportamento. Olhe com gratidão para o espaço de adoração, para a liberdade religiosa, para as poucas horas que valem mais do que mil nas sendas da perversidade. Olhe finalmente o olhar da esperança, da vida que pode ser incomparavelmente melhor na presença de Cristo e sob a orientação do Espírito da Verdade. Cultive esse olhar e continue olhando assim quando sair do templo, sabendo que a vida é a liturgia e a liturgia é a vida.

Por favor, meu querido irmão, não olhe para as “lagartixas” diminutas que podem ser motivo de estranheza, que até fazem parte da vida, mas que jamais podem desviar a direção do nosso olhar daquilo que realmente vale a pena ser olhado (leia Mateus 6.22,23).

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)

“Meninos da caverna”

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

Os olhos do mundo inteiro se voltaram para o resgate dramático dos doze meninos e do técnico de futebol que ficaram presos em uma caverna na Tailândia. O ato heróico dos mergulhadores que encontraram os garotos, toda mobilização para resgatá-los com vida, a morte de um dos socorristas, a angústia das famílias e a expectativa de todos; tudo isso e muito mais gerou comoção nos quatro cantos da Terra. Todos nós ficamos sensibilizados e aliviados com o desfecho da história.

Os meninos de 11 a 17 anos e o jovem treinador estão agora se recuperando em um hospital de seu país. Precisam de cuidados médicos e de uma alimentação adequada. Os riscos de uma contaminação com doenças de cavernas ainda não estão descartados e até mesmo o encontro com os pais e familiares precisa ser bem planejado. Alguns dizem que eles nasceram de novo e o processo de retomada à vida normal não pode ter pressa.

Os meninos da Tailândia estão sendo chamados de “Meninos da Caverna” e o nome dado nos convida à reflexão. As águas torrenciais caíram naquela região, como é comum nesta época do ano, e a caverna ficou alagada. A escuridão era total e os dias, de medo e pavor. O socorro chegou no limite da sobrevivência e a voz que veio das profundezas veio como alívio e esperança. Os “meninos da caverna” foram libertados, resgatados e sobreviveram. A história deles se tornou uma das histórias mais impressionantes que se têm notícia nesta vida.

É bem provável que no futuro o resgate dos meninos da caverna sirva de roteiro para um filme, um documentário ou coisa parecida. O fato é que a história em si já traz a sua lição e prega, por assim dizer, o seu sermão. Tristemente temos que constatar que pelo mundo inteiro há meninos e meninas que estão presos no que podemos chamar de caverna da escuridão. E aqui podemos falar sobre o abandono, o desprezo, a exploração e a desestruturação moral, espiritual e familiar. Meninos e meninas da caverna presos pelas ideologias, massacrados pelas águas lamacentas da imoralidade, desnutridos de espiritualidade, envoltos pelo manto escuro do vazio sem Deus.

Um dos mergulhadores que achou os meninos e o técnico de futebol lhes disse: “Nós somos só dois. Mas muita gente está vindo”. Com isso ele os tranquilizou mostrando também que seria necessário o esforço conjunto de muitos e que o resgate não seria a tarefa de poucos. Assim, podemos dizer que o resgate dos meninos e meninas da “caverna” precisa vir também de várias direções: da família, da igreja, das escolas e de todas as pessoas de bem que desejam vê-los soltos, livres e contemplando a luz da verdadeira liberdade e do real ponto de vista.

Cavernas, literais ou não, são lugares de sombras e de imagens distorcidas. Meninos e meninas não são feitos para viverem nelas. Há dados alarmantes hoje que revelam o grande número de jovens e adolescentes que se suicidam, outros que se envolvem em drogas e crimes os mais horrendos. Há meninos e meninas vivendo na fronteira do desespero, conduzidos por sistemas ideológicos que pregam a liberdade, mas que, na verdade, escravizam, acorrentam, sufocam, oprimem e desumanizam.

Meninos e meninas precisam de luz e não de trevas, precisam do “ar” que os faça respirar para Deus e não de conceitos que sufocam e matam. E aqui aproveitamos mais um momento que envolveu o resgate na Tailândia. Um dos socorristas que havia levado suprimentos e oxigênio para o grupo, ele mesmo teria ficado sem ar suficiente. Ele não resistiu e morreu na operação de socorro. Integrantes da equipe de resgate relataram que a morte não seria em vão e serviria para aumentar o propósito da missão. Neste ponto é importante lembrarmos-nos do que fez o Senhor Jesus por nós. Ele deu a sua vida para que por Ele você e eu pudéssemos viver (João 3.16; 10.10).

Que o gesto de Jesus na cruz nos encoraje a seguir em nossa missão de salvar os “meninos da caverna”. Que Deus tenha misericórdia destes e que, ao conhecerem a luz de Cristo e o ar que vem do céu, eles sejam libertados de toda e qualquer escuridão.

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG).