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Olhos marejados de lágrimas

Por Reverendo Célio Teixeira  Júnior*

Os olhos ardem quando estão cansados, se ofuscam quando estão doentes e ficam marejados de lágrimas quando sentimos no peito uma emoção qualquer. Quando eles se encontram assim, é certo que deles brotem lágrimas que são como santo remédio. Lágrimas por causa de boas lembranças, de doces surpresas, de agradáveis presenças e de verdades inefáveis segredadas à alma que refletem nos olhos um brilho radiante e uma alegria contagiante. Esse tipo de lágrima faz bem para o coração e ajuda a viver melhor. Mas é possível também que olhos marejados de lágrimas sejam um reflexo de uma tristeza profunda, de uma dor aguda, de uma ausência qualquer ou de uma lembrança doída. Sim, os olhos são, como disse alguém, “a janela da alma”.

  Todos nós já tivemos os nossos olhos marejados de lágrimas e frequentemente eles insistem em permanecer assim. Às vezes o motivo não vem de dentro do peito, mas da fumaça que cobre a cidade, que sai das chaminés das fábricas, dos escapamentos dos carros ou da atitude tresloucada de quem botou fogo no mato. Neste caso, além do nosso protesto e indignação, cabe-nos uma boa medida de higiene pessoal: lavar bem os olhos ou pingar um colírio adequado sob a orientação de um oftalmologista competente. Mas quando os olhos insistem em chorar, e a razão é outra, não a do ar poluído que nos envolve, então que se saiba lidar com eles para que as lágrimas curem e não sejam um retroalimento do desespero, da angústia e da depressão.

  Longe de mim querer julgar quem quer que seja, mas desconfio de quem se declara arrependido e os olhos permanecem secos, sem que uma lágrima sequer seja vertida e escorra na face. Principalmente se o choro for forçado. Sei que alguns já choraram demais e pela dor persistente, as lágrimas “secaram”. Mesmo assim, insisto em dizer, olhos marejados de lágrimas ainda são um sinal seguro da emoção que vem de dentro. Confesso que gostaria de ver o choro sincero daqueles que nos governam. E não somente deles, mas o nosso também. Digo isso porque temos muitas vezes desviado os nossos pés dos caminhos de Deus: da justiça, da retidão, da verdade e da honestidade. Alguns se desviam deliberadamente, outros, por omissão. Mas a cada um de nós cabe, sim, o choro do arrependimento. “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mt 5.4).

  Tristemente falando, sei que há dor que parece não ter fim e que há dias em que as nossas lágrimas são o nosso alimento, o nosso pão de toda hora e de cada instante. Olhos assim, marejados de lágrimas, falam mais alto do que gritos de desespero e se expressam mais do que lamentos que são como uivos. É como se a alma estivesse sendo espremida e a lágrima escorrida fosse um clamor do coração e um pedido de compaixão. Se este é o seu caso, não se desespere, entregue a sua vida a Jesus e creia nele, pois Ele mesmo promete enxugar dos olhos toda lágrima (Ap 7.17). Hoje Ele nos dá o Seu Espírito, o Consolador (Jo 14.16); e no Dia de Sua volta Ele nos dará um novo céu, uma nova terra e um novo corpo sem olhos marejados de lágrimas (Ap 21.4).

Além de chorarmos assim, falando positivamente, é bom termos também os olhos marejados de lágrimas quando o motivo é a felicidade incontida. Isso acontece quando alguém que se estima chegou de longe, abraçou bem forte e matou a saudade. Ou quando alguém que se ama escapou da morte, foi curado e voltou para casa. Os olhos de pai e mãe ficam marejados de lágrimas quando os filhos chegam e também quando eles vão embora. Os mais românticos lacrimejam quando ouvem uma linda melodia, quando contemplam o nascer do sol ou o arrebol. Dos olhos de quem vê a criação de Deus e nela enxerga a graça comum do Criador, brotam lágrimas de um verdadeiro louvor. Como é bom verter lágrimas de gratidão.

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)
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A melhor escolha

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

A melhor escolha precisa ser bem pensada, de cabeça fria, concatenando as ideias, amealhando as informações, medindo as consequências e visualizando os resultados. A melhor escolha não pode ser inconsequente, interesseira, na base da troca ou da barganha e nem tampouco egoísta. A melhor escolha precisa ser sincera, verdadeira, honesta e de coração. A melhor escolha serve para o tempo da eleição, mas também para qualquer tempo de nossa história e de nossa caminhada.

A melhor escolha faz bem para alma e também para o corpo. Ela espalha amor, constrói e não destrói, edifica, firma e salta para vida eterna. A melhor escolha traz alegria perene, louvor constante e gratidão permanente. A melhor escolha não é frustrante, não traz remorsos e nem faz brotar a ilusão. A melhor escolha faz nascer no peito uma linda canção.

Conquanto a melhor escolha valha, em muitos de seus aspectos, para os candidatos que são aqui da terra, que se apresentam neste tempo procurando o voto do cidadão, não é sobre eles que me refiro aqui propriamente. A melhor escolha tem a ver com um cidadão do céu. Esse cidadão veio à terra um dia. Mesmo sendo do céu, viveu todas as implicações da natureza terrena: teve fome, sentiu frio, cansou-se e por isso adormeceu profundamente, angustiou-se, chorou, se revoltou diante da hipocrisia e amou intensamente.

Ele é a melhor escolha, pois a verdade está nele. Ele não promete o que não pode cumprir e tudo o que ele fala, ele mesmo faz acontecer. Ele tem autoridade tanto na terra como no céu. Ele governa sobre os anjos e dirige a história. A sua voz é como o som de muitas águas e o seu olhar sonda as profundezas do mar, o infinito azul do céu, a minúscula gota de orvalho e as intenções do nosso coração.

Ele desceu às regiões mais profundas, morreu uma morte infame, viu de perto a maldade do homem, sofreu em sua própria carne o pecado com toda a sua feiura, mas saiu incólume, não se deixou contaminar, não cedeu, não aceitou propina, não vendeu a sua alma ao diabo e nem caiu na conversa do inimigo. Ele é, com certeza, a melhor escolha. A melhor escolha em tempos de aflição, a melhor escolha na calmaria. A melhor escolha em tempos de paz e a melhor escolha quando as nuvens sobre nós se acinzentam, se escurecem e anunciam a tempestade.

Só ele, em toda a história, fez mais do que se humanizar e mais do que se deixar morrer. Ele venceu a morte, ressuscitou, está vivo e recebeu um nome que está acima de todo o nome. Só ele, portanto, é capaz de dizer: “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11.28-30).

A melhor escolha é escolher Jesus de Nazaré. Na verdade, não é a nossa escolha que nos leva a Jesus, mas o fato dele mesmo ter nos escolhido que nos leva, então, à melhor escolha. E quando fazemos opção por ela, precisamos entender que a vida deve ser pautada sempre dentro das implicações que ela traz. A melhor escolha nos leva pelo caminho da verdade, da honestidade, da transparência, do amor ao próximo, do perdão, da gratidão e do louvor a Deus.

Sendo tudo isso verdade, diríamos que a melhor escolha também tem implicações políticas. Se a nossa melhor escolha é Jesus, é viver ao lado dele, ao pé da cruz, então não podemos abrir mão dos valores que ele ensina. Sendo isso verdade, nas urnas, pergunte:O candidato escolhido com as suas propostas se coadunam, em boa medida, com a melhor escolha que já fiz um dia?

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)

Estação das flores

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

“É Primavera”, já dizia Tim Maia em uma de suas canções. A música romântica, por certo, inspirou, e ainda inspira, muitos casais enamorados. E, como diria outro compositor, Geraldo Vandré, em sua canção que ficou marcada como uma espécie de hino no período da ditadura militar, “pra não dizer que não falei das flores”, cabe aqui uma reflexão sobre a tal estação. Ela chegou e espero que traga bons ares, bons aromas e uma chuva mansa que regue a terra e a faça brotar sem detença. Que ela refresque a nossa alma e encha o nosso coração de alegria.

A estação das flores é vida que renasce e mesmo que não haja, como disse Cecília de Meireles, nenhum jardim para recebê-la, ela vai chegar e os dias serão dela. Na primavera florescem as gérberas, as rosas e os jasmins. Algumas espécies de orquídeas são exuberantes nesta época. As violetas e os lírios também. Primavera é tempo dos girassóis, dos crisântemos e das tulipas. A terra fica cheia de cores e elas são o nosso deleite.

As flores atraem as abelhas e os beija-flores. Os jardins se pintam de vários tons e em cada canto a vida renasce. Do alto do abacateiro o sabiá desfere o seu canto, as maritacas aprontam cedo a sua algazarra e os bem-te-vis se entusiasmam em suas cantorias. Na primavera as sacadas de muitas residências ficam floridas, os quintais mudam de cor e o vento sopra com hálito fresco e perfumado. Somos envolvidos com o frescor das manhãs orvalhadas e as noites são mais belas. Não é sem motivo que a Bíblia compara a primavera com a juventude, com a flor da idade.

Contamos os nossos anos, não pelos invernos que passamos, ou pelos outonos e verões que existem, mas, sim, pelas primaveras que desfrutamos. E já que o nosso assunto é a estação das flores, então que se pense bem sobre o que ela representa e o que ela significa. Não podemos deixar, de forma alguma, que tons de cinza dominem a nossa vida, que o descolorir da mentira, da imoralidade, da corrupção, do erro e do engano, sejam ditadores de nossa Pátria cujos campos têm mais flores e onde o céu é mais anil.

Que a estação das flores traga o bom perfume da justiça no Brasil. Que ela exale entre nós o aroma da verdade, da honestidade e da esperança de dias melhores. Que as flores da primavera embelezem os nossos palácios, exalem o bom cheiro do amor em nossos lares, enfeitem as mansões dos poderosos de simplicidade e humildade, e as casas dos menos favorecidos de dignidade, honra e oportunidade. Que a estação das flores nos faça viver mais sorridentes, sem animosidade no coração e ranço na alma. Que ela plante um sorriso em nossos rostos e nos torne mais solidários e prontos para servir.

É bom que se diga que a estação das flores passa rapidamente, assim como a nossa vida também. O escritor sagrado disse certa ocasião: “Afasta, pois, do teu coração o desgosto e remove da tua carne a dor, porque a juventude e a primavera da vida são vaidade” (Ec 11.10). A palavra vaidade no texto tem o sentido de algo efêmero, passageiro e transitório. Isso significa que devemos aproveitar bem as oportunidades dadas na “primavera”. Enquanto há flores no nosso jardim, enquanto há vida em nós, então temos que aproveitá-la. E a principal forma de fazermos isso é procurar viver com temor de Deus no nosso coração.

Eu tenho impressão que o Senhor Jesus curtia a primavera. Ele convidou certa vez os seus discípulos, que andavam meio ansiosos, a olharem os lírios do campo (Mt 6.28). Não tenho certeza do tempo certo em que os lírios florescem em Israel, mas, quem sabe, podemos aplicar a lição à nossa estação das flores. Jesus disse que assim como o Pai celeste cuida dos lírios, Ele cuida também dos seus filhos. Nervosismo e ansiedade, portanto, são incompatíveis com a fé e fé que se preze desemboca em vida que agrada a Deus e respeita o próximo.

Sendo assim, o convite é para que você curta a estação das flores e faça dela uma oportunidade para que o seu coração floresça de amor, de paz, de justiça e de esperança.

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG).

Foi ali que aprendi

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

(Homenagem ao Dia da Escola Dominical)

Sim… foi ali que aprendi as Sagradas Letras que podem tornar sábio o homem para a sua própria salvação (2Tm 3.15).

Foi ali que ouvi as histórias de Davi, que escutei atento sobre o chamado de Samuel, que conheci sobre a fé de Abraão e a fidelidade de José. Foi ali, sim, que atravessei o Mar Vermelho com Moisés, que marchei com Josué em volta de Jericó e que venci a batalha com Gideão. Aprendi também sobre a coragem de Jeremias, o destemor de Elias, a persistência de Eliseu, sobre as palavras de Isaías e a sabedoria de Salomão.

  Ainda recordo, como se fosse hoje, a primeira vez que ouvi a história de Balaão. Achei engraçada a lição que a sua própria mula lhe deu falando com ele em alto e bom som. Fiquei triste com o pecado de Adão e com a inconstância de Sansão. Mas me fortaleci com a fé de Enoque e desejei entrar, nos meus sonhos, na Arca que Noé construiu.

  Ouvi sobre Débora, a juíza que libertou Israel. Admirei-me com a história de Rute, a Moabita; e me alegrei com Ana pela vitória que Deus lhe deu. Sentado à roda de uma mesa, ou em cadeiras pequenas de madeira com tiras de ripa, colori as figuras dos reis de Israel e Judá, desenhei o peixe que engoliu Jonas, a sarça que ardia e não se consumia e as tábuas da lei escritas no Monte Santo, pelo dedo de Deus.

Particular interesse eu tinha pela fé de Daniel. Sua extraordinária libertação da cova dos leões me causava espanto e admiração. Como teria sido passar àquelas horas ao lado de tão terríveis feras e como seria sair dali sem nenhum arranhão? Tudo isso tomava conta de minha imaginação. Igualmente admirável era para mim a história dos três amigos que foram levados para Babilônia, salvos ilesos da fornalha sobremaneira acesa. Sim, jovens destemidos e cheios da graça de Deus com os quais cada dia eu almejava parecer.

  Ah como eu me emocionava com as histórias do meu doce Jesus, os seus milagres extraordinários, o seu amor incomparável, a sua força inigualável, a sua dor atroz, a sua entrega incondicional e a sua vitória incontestável. Queria ser como aquelas crianças que Ele abençoou, como aquele menino que lhe trouxe os pães e os peixes. Queria estar dentro do barco quando Ele acalmou a tempestade e daria tudo para me sentar à relva e ouvir as suas histórias de vida eterna.

  Foi ali que aprendi sobre o Pentecostes, sobre o sermão de Pedro, sobre o testemunho firme de Estevão, sobre a conversão de Saulo, sobre o entusiasmo de Filipe e a transformação do Eunuco. Aprendi também sobre as viagens missionárias de Paulo, sobre o carcereiro de Filipos e que Lídia era vendedora de púrpura. Os meus ouvidos atentos não deixaram escapar a história de Êutico, o jovem que caiu da janela durante o prolongado sermão de Paulo. Ouvi ali também a história de Dorcas e sua dedicação, sobre a prisão de Pedro e João e chorei com a morte de Tiago que teve na espada de Herodes o seu fado.

Sim… foi ali que aprendi e é ali que quero sempre estar. Você também pode aprender palavras de vida, de salvação, de consolo, de crescimento que saltam para a vida eterna. O lugar também é seu, espera por você, ninguém vai ocupá-lo. Sendo pequeno ou grande, velho ou criança, homem ou mulher, é ali, na Escola Dominical, que eu espero encontrar você.

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG).

“Quando a última flor do ipê”

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

A terra tem o seu esplendor e, apesar de todo o gemido da criação pelo cativeiro em que ela se encontra (Rm 8.21,22), podemos admirá-la e louvar ao Criador porque ela veio a existir um dia e permanece ainda hoje como estrado de nossos pés. Ela fica num cantinho do universo e é tão frágil que com um só relance do olhar de Deus ela treme todinha (Sl 104.32). Neste pequeno mundo o Senhor plantou árvores no Seu jardim (Sl 104.16). Árvores frondosas e altaneiras, árvores frutíferas e de boa madeira. Plantou palmeiras onde canta o sabiá, plantou mangueiras e o imponente jatobá. Pediu ao homem que cuidasse delas e que da terra tirasse o seu sustento e que não ficasse, ele mesmo, como dono absoluto de todas as coisas, antes, que servisse a Deus e partilhasse com o seu próximo o pão de cada dia.

Deus plantou também com todo capricho o ipê amarelo. No princípio, eu acredito, o ipê florescia todos os meses e todos os dias. Sua flor não murchava e a sua beleza não se desvanecia. Algumas flores dele até caiam no chão e faziam dos caminhos do jardim um prenúncio do ouro das ruas da cidade do céu. Confesso, que se eu estivesse lá, eu iria conversar com Deus, na viração do dia, debaixo do ipê amarelo assentado sobre as flores caídas ao chão. Em certo sentido eu estava lá, e você também. E quando o homem pecou, desobedeceu, voltou as costas ao Criador nós fizemos isso também. (Rm 5.12). O jardim fechou as suas portas e a terra produziu espinhos, cardos e abrolhos.

  Agora o ipê amarelo floresce só uma vez por ano, no mês de agosto, no inverno e no tempo seco. A sua florada, no entanto, parece nos ensinar algo de extraordinário. Por ser efêmera, ela ensina que a vida é como a flor que hoje existe e amanhã murcha e seca (Is 40.8). Que a primavera da vida tem o seu tempo curto e que nada do que existe hoje durará eternamente (Ec 11.10). Ela também nos ensina que nem mesmo o rico tem aqui firmeza ou segurança, pois tudo o que o homem possui não lhe pode garantir sequer um dia a mais ao curso da sua vida (Tg 1.11).

A florada do ipê, por ser tão bela, também nos ensina que é possível florescer em meio à sequidão. É possível ser exuberante mesmo quando o pó vermelho da estrada se levanta e sopra em nossa direção. O ipê esquecido, adormecido, acorda num sobressalto e nos convida a curtir o instante, a aproveitar o momento e nos fazer pensar de novo que a vida só tem sentido se for vivida na esperança de que um dia a terra de Deus há de ser redimida.

  Quando a última flor do ipê então cair é hora de pensar. Caiu para secar, para adubar a terra, para nos dar a esperança de uma nova vida, para dizer que está próxima a primavera. Caiu para dizer adeus, para mostrar que não temos aqui uma cidade definitiva, que buscamos a que há de vir, aquela cujo artífice e fabricador é o próprio Deus. Caiu para nos lembrar de um jardim de outrora, para nos fazer sonhar com o jardim que será plantado na praça da cidade. Caiu para mostrar que debaixo do sol amarelo só a Palavra que nos foi evangelizada há de permanecer sem desvanecer. A Palavra é o Evangelho das Boas Novas da Salvação em Cristo Jesus, pois se o pecado veio por um só homem também por um só ato de justiça veio a justificação que dá a vida (Rm 5.18).

Eu não sei se seria sacrilégio, mas eu tenho a impressão de que as flores das árvores da praça da cidade que virá um dia serão semelhantes a flor do ipê amarelo. Quem sabe elas serão assim porque serão um reflexo das ruas de ouro ou da glória de Deus que há de brilhar mais do que milhões de sois ao meio dia (Ap 22.5). É só uma simples imaginação. Se isso acontecer, confesso, ficarei satisfeito. Talvez no próximo ano tenhamos outras floradas do ipê amarelo e no outro ano também. Não sei quantos anos ainda virão, mas sei, sim, que um dia, enfim, a última flor do ipê vai cair e a esperança de vê-lo novamente será guardada então para o novo céu e a nova terra (2Pe 3.13).

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG).

O candidato de Deus

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

Em um artigo publicado em um jornal do interior de São Paulo, o articulista escreveu sobre o que ele chamou de “voto e servidão voluntária”. Dentre outras coisas, ele conta sobre uma conversa que teve com uma senhora crente. Ao perguntar-lhe sobre em quem votaria, ela teria lhe dito: “Naquele que Deus mandar”. A resposta causou admiração no autor da matéria e, obviamente, em todos os leitores do seu artigo. Maior admiração, no entanto, foi causada quando ela afirmou que o “candidato preferido de Deus” seria aquele indicado por seu pastor.

  Como pastor que sou, fiquei pensando na conversa e no enfoque dado no artigo publicado. É verdade. Há muitos que agem assim: Que induzem os seus fiéis, que manipulam os seus ouvintes, que pressionam os seus seguidores e que tentam fazer valer a sua opinião. É claro, isso não é prerrogativa somente de alguns pastores, mas de alguns padres e de alguns líderes religiosos também. O que é trágico, pois todas as vezes que a igreja agiu assim ela perdeu a sua liberdade de ser profeta e a política perdeu se deixando amarrar pelo “cabresto” religioso.

  O Estado é laico e precisa continuar sendo. No entanto, seria bom pensar no assunto levantado: Deus teria o seu próprio candidato? Em quem Deus votaria se ele fosse eleitor? Uma boa pergunta, pois muitos são aqueles que, na hora da campanha, apelam para Deus e se declaram fervorosamente religiosos. Antes do pleito é comum vermos candidatos subirem aos púlpitos de algumas igrejas e prometerem favores especiais como terrenos, reformas e outras coisas mais. Nessa hora, sim, há muitos que dizem: “Esse é o candidato de Deus!”

  Embora, pelas minhas convicções baseadas nas Escrituras Sagradas, eu acredite que não há autoridade que não proceda de Deus (Rm 13.1), por outro lado, eu sei que nenhuma delas traz, à priori, dependurada no pescoço, o crachá de escolhida do céu ou enviada pelo Altíssimo. Deus nos dá a liberdade de fazermos nossas escolhas e devemos fazê-las sempre com critério, bom senso e exame das propostas feitas e do plano de governo. O lado de Deus, por assim dizer, não anula de forma alguma, o nosso papel como cidadãos conscientes e responsáveis.

  Deus não nos aponta este ou aquele candidato, mas ele, com certeza, orienta a nossa decisão. E é bom lembrar que a orientação é tanto para quem vota como para aquele que é votado. Não seguir tais orientações pode nos levar a viver dias difíceis sob o jugo da escravidão, da espoliação e da corrupção. Deus não nos manda filiar a este ou àquele partido, mas ele nos esclarece que há caminho que aos homens pode parecer bom, mas no final o caminho não dá em nada e, o que é pior, pode levar à morte.

Talvez seja importante dizer que o “candidato” de Deus precisa ter, no mínimo, as seguintes qualificações: boa reputação, preparo, honestidade e disposição para servir e não para ser servido. O candidato de Deus deve seguir uma máxima de Jesus: “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno” (Mt 5.37). Além disso, ele não é ganancioso, fraudulento e interesseiro. O candidato de Deus é cordato, educado e responsável. Ele é mordomo dos bens que lhe foram confiados e, por isso, consciente de que “Àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lc 12.48).

O nosso grande problema é que nem sempre as nossas escolhas são escolhas alinhadas à vontade de Deus. Há um princípio universal que não podemos nos esquecer: Toda posição de autoridade é preenchida. A questão não é se vamos ter ou não vamos ter líderes sobre nós, mas quem serão os nossos líderes? E nesta hora é preciso lembrar das orientações dadas pelo Senhor, pois pode ser que ao negarmos tais princípios, ele mesmo deixe vir sobre nós um governo nada agradável, feito à semelhança daqueles que o merecem.

O candidato de Deus pode até ser alguém não muito afeito à religião, mas se ele tem vocação política, preparo adequado e uma boa ética, então, talvez, ele seja um bom candidato. Que Deus abençoe as eleições que se aproximam e nos dê dias melhores e mais tranquilos.

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG).

“Ver contente a mãe gentil”

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

O Hino da Independência diz aos filhos desta Terra que já podem ver contente a mãe gentil, pois raiou a liberdade no horizonte do Brasil. O Hino também nos fala sobre os grilhões que nos forjavam e que houve mão mais poderosa e que agora, independente, o país zomba deles e desfruta da liberdade enfim. Sim, a nossa Pátria é livre, mas tristemente temos que reconhecer que ainda não está longe de nós o temor servil. Os grilhões hoje são outros e a mãe gentil chora entristecida a condição dos seus filhos e especialmente daqueles que conduzem esta Nação.

A nossa “mãe” tem sido gentil de fato, pois ela abriga em seus braços gente de toda cor e de todo credo. Ela é generosa e acolhedora para os que vêm de fora e os seus filhos encontram nela o regaço que tanto necessitam. Ela se estende sob os nossos pés em esplendor e glória, oferece às nossas mãos trabalho e oportunidade e se descortina diante dos nossos olhos com uma beleza que não tem igual. Sim, a nossa mãe é altaneira, os seus campos têm mais flores e os seus bosques têm mais vida. Ela não é agressiva e o seu “berço” não balança com violência e nem os seus mares se levantam, como outros, em terríveis procelas.

A nossa mãe é gentil, mas, por certo, ela anda triste outra vez. Ela rompeu no passado as algemas do imperialismo, da subserviência a uma terra além-mar. O brado retumbante foi ouvido às margens do Ipiranga e as cadeias foram desfeitas. Ela, no entanto, precisa saber que grilhões têm a capacidade de ressurgir e o fazem de forma mais resistente do que a primeira vez. E o que existe de pior é que eles surgem de dentro, daqueles que antes foram chamados de “povo heróico” e de “brava gente”. Os que empunharam a espada da liberdade, hoje se deixam escravizar pelo engodo do poder e do brilho da prata.

A mãe gentil chora as lágrimas do desespero e têm os seus olhos marejados pelo descaso e abandono daqueles que deveriam cuidar dela, zelar por ela e protegê-la dos salteadores e ladrões da justiça e da verdade. O coração da mãe gentil, que bate no planalto central, bate descompassado, no ritmo da propina, dos conchavos interesseiros, da falsidade sem medida e da injustiça sem fronteira. Ela agoniza no seu leito de enfermidade moral e tem a febre alta da crise que a torna cada vez mais enfraquecida, vacilante e sem reação. É triste vê-la assim, pois ela é tão bela e merece um destino melhor.

A mãe de todos nós brasileiros precisa urgentemente que nós, os seus filhos, sejamos mais fortes do que dantes. Que nos revistamos da honestidade e que estejamos prontos a lutar contra o erro e contra o pior inimigo de todos, a corrupção. Não podemos jamais nos conformar com o estado de coisas erradas que vem corroendo a nossa “mãe” e a destruindo como câncer sem cura. Não podemos vê-la enfermar sem nada fazermos. Precisamos promover a cura dela, a alegria dela e paz que ela tanto necessita. Fazendo isso, nós mesmos seremos agraciados com a sua saúde e haveremos de sorver de suas fontes de justiça e de seus ribeiros de prosperidade.

Precisamos, em primeiro lugar, nos voltar para Deus com temor e devoção. Pode parecer simplista a solução, mas não é. A Bíblia diz que feliz é a nação cujo Deus é o Senhor (Salmo 33.12). Com isso, não estou dizendo que o Estado deve deixar de ser laico ou que a mãe gentil deve abraçar esta ou aquela religião, mas que os filhos dela precisam reconhecer que há alguém que está sobre todos e acima de todos e que ele mesmo reivindica para si o direito de ser amado e reverenciado. Quem ama a Deus, ama o próximo, ama a mãe gentil e cuida dela.

Precisamos também fazer a nossa parte como filhos desta Terra nas pequenas coisas que a própria vida exige de nós. Precisamos cuidar de nossa própria casa, do jardim em volta dela, da escola do nosso bairro, das ruas de nossa cidade, do chão que a gente pisa e dos caminhos pelos quais passamos. O cuidado a que me refiro não é só físico e material, mas também ético, moral e espiritual. Em outras palavras, com nossa atitude honesta, caráter impoluto e com nossas preces, vamos fazer e ver, com certeza, contente a nossa mãe gentil.

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)