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Arquivo mensal: junho 2018

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A nota fora do tom

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

Há bem mais de vinte anos, dez jovens participavam de uma gravação de um musical que estava sendo preparado para o Natal. Eles faziam parte de um conjunto de sinos chamado Musicata de Louvor. Cada sineiro controlava de dois a três sinos e cada sino correspondia a uma nota musical.

Um dos sineiros estava particularmente entediado com uma música em particular, pois ele tocava, na canção referida, apenas uma vez, uma nota só, a última, por sinal.Durante a gravação ele ficava ali assentado, aguardando a sua vez. O estúdio de gravação era simples, precário e não havia, naquele tempo, os recursos modernos de hoje. Por isso não se podia errar. Quando um erro acontecia tudo voltava ao início. Gravar uma música demorava horas e o musical, vários dias.

Aquela música, especialmente entediante para aquele tal sineiro, estava exigindo um esforço redobrado dos demais. A regente, com toda a sua capacidade e empenho, dava o melhor de si e exigia de todos uma perfeição quase que absoluta. Depois de horas, quando finalmente a gravação caminhava para o final e aproximava o momento da nota derradeira, orgulhosamente o jovem pegou o sino, se posicionou e, seguindo cuidadosamente a pauta em suas últimas linhas, tocou sem destemor.

Foi um arraso total. O ritmo estava certo, o tempo também, mas a nota estava trocada, foi a nota fora do tom. Não precisa nem dizer que todos o olharam com olhar fulminante e só não lhe expulsaram dali porque a gravação precisava continuar. Tenho a impressão que o tal sineiro aprendeu uma lição, ou, quem sabe, duas ou três. Mas uma delas, talvez a mais importante, foi a de que uma nota fora do tom pode estragar toda a melodia.

Acho que daria uma boa metáfora esta história. Uma metáfora que serve para a vida, mas que se aplica, particularmente, aos nossos relacionamentos como igreja do Senhor Jesus. Eu diria, então, que somos como uma linda partitura, escrita pelo divino artista. Somos também como um poema de uma nova criação (Ef 2.10). Este Artista deu a cada um de nós, por assim dizer, uma nota musical. Alguns controlam duas e até três, outros, no entanto, apenas uma.

O divino artista as dispôs assim. Em sua mente e coração, ele escreveu tudo com perfeita harmonia e sonora melodia. Lá de sua morada, ele escuta o som que tocamos aqui. Às vezes, a música é bela e harmoniosa, outras, no entanto, simplesmente não se ouve absolutamente nada ou apenas um barulho como “bronze que soa ou como o címbalo que retine” (1Co 13.1).

Há algumas razões para que isso aconteça. Há “sineiros” que são orgulhosos e cheios de si, se acham indispensáveis e não gostam de tocar uma nota só. Reclamam do autor da partitura e, simplesmente, não desejam cooperar. Estão preocupados com as regras, com as voltinhas minuciosas das notas em suas pautas e se esquecem de olhar para as próprias mãos. Falta-lhes o essencial: o amor.

Outros, só conseguem ouvir os erros e as falhas da música tocada, criticam os regentes e abandonam a gravação no meio. Gente assim sai procurando outros “estúdios” mais modernos, onde, na opinião deles, serão bem aceitos e valorizados. Afinal, para estes, o estúdio onde estavam, está ultrapassado e obsoleto e eles são bons demais para desperdiçarem seu talento ali.

Uma nota, apenas uma, fora do tom, estraga toda a melodia. Sendo assim, cada uma é importante e nenhuma pode ser desprezada. Todas precisam tocar juntas, pois uma depende da outra. Quando isso acontece, o divino artista se alegra e as notas também ficam satisfeitas.

Na verdade, a música é bela, não só para quem ouve, mas, principalmente, para quem toca. Além disso, é preciso sempre lembrar que os outros “estúdios” são iguais. O que fará sempre a diferença é a humildade de se dispor nas mãos daquele que pode fazer novas todas as coisas e o amor que permanece eternamente (leia 1Co 12 e 13).

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)
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Sou moço

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

O salmista disse certa vez: “Fui moço e já, agora, sou velho”. Embora a ênfase do texto seja no amparo e no cuidado de Deus sobre a vida dos justos, o autor de tais palavras reconhece que teve uma época em sua vida em que foi moço e esse tempo era passado. Ele foi moço, sim, e viu muita coisa acontecer debaixo do sol. Só não viu um filho de Deus ser abandonado ouentregue à sua própria sorte.

O Senhor sempre esteve ao lado dos seus, e jamais pode ser dito que Ele algum dia os tenha desamparado. Mas nessas simples palavras, talvez seja importante lembrar que a vida é assim: passageira, transitória, momentânea e efêmera. Todos nós, mais cedo ou mais tarde, vamos dizer um dia: “Fui moço”. O tempo é implacável e os anos voam como um breve pensamento. O vigor da juventude é como uma neblina que aparece pela manhã e logo se dissipa e vai embora. “A juventude e a primavera da vida são vaidade” (Ec 11.10). Ao usar tal expressão, não me dirijo àqueles que já foram moços um dia, mas aos que podem dizer agora: “Sou moço” ou “Sou moça”. Estes são aqueles que estão na flor da idade, que fazem parte da mocidade, que já passaram pela infância, que ainda não chegaram aos cabelos brancos, aos anos pesados, à vida cansada e aos dias extenuantes. A mensagem é para quem vive entre os dezoito e os trinta e cinco anos, um pouco mais ou um pouco menos.

Esse é um tempo de construir os sonhos, de tomar decisões que refletem por toda vida, de traçar o rumo e de definir o norte. É normalmente durante esses anos que o jovem escolhe a sua profissão, se casa e arruma um emprego. Ainda que outra direção possa ser tomada depois, nada supera o que foi feito, decidido ou escolhido no tempo mencionado acima. Andam dizendo por aí que muitos estão “esticando” esse tempo, que há adolescentes com mais de vinte anos de idade e que há adultos que não querem abrir mão da juventude.

Não importa o limite de idade, mas, sim o que andam fazendo na mocidade. Fico feliz ao ver que há jovens solidários, responsáveis, engajados em seu tempo, politicamente corretos, ecologicamente preocupados, sonhadores e dedicados. Há jovens que são excelentes em seus empreendimentos, eficientes em seu trabalho, inteligentes em seus feitos e especialmente ágeis em seus raciocínios. A maioria é tecnologicamente antenada e possui perspicácia em suas decisões. Os jovens hoje são rápidos demais e estão conectados vinte e quatro horas por dia.

Sem dúvida alguma, há muito o que dizer de positivo dos moços e moças do nosso tempo.
No entanto, há preocupações também. Na cabeça de muitos, as imagens são desconexas, não tem sobrado tempo para a reflexão. A concentração anda prejudicada e a impaciência toma conta. Alguns, por isso, têm perdido a capacidade de curtir uma boa música de conteúdo e de letra profunda. Outros, também, por esta e outras razões, têm banalizado a arte e a poesia. Lamenta-se também o desprezo pela história passada e o desdém em relação ao que é antigo e conservador. O pior, no entanto, é o que anda acontecendo no campo da moral e da espiritualidade.

Há muitos moços e moças que vivem uma “liberdade” ilusória. Acreditam que o certo é determinado pela vontade própria, pela felicidade momentânea e pelo prazer imediato. Alguns têm caído no relativismo ético e, o que é mais trágico ainda, têm descartado Deus de suas vidas. Há um ateísmo prático, que deixa o Senhor Jesus de fora, que o exclui das decisões e que o elimina das horas quando se busca diversão e o entretenimento. Não são todos, é verdade. Mas são muitos. Há muitos moços e moças querendo ficar ricos, mas não ricos para com Deus. Há milhares que desejam dias melhores, mas não buscam um coração transformado pelo Evangelho de Cristo. Querem a paz, mas, contraditoriamente, abrem mão de se relacionarem  com o “Príncipe da Paz”.

Se você pode dizer: “sou moço (a)”, então lhe dou os parabéns. Curta a sua vida! Mas eu também lhe recomendo: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer” (Ec 12.1).

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)

Eu creio, sim!

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

Uma das belas canções cristãs, traduzida para o português, eternizada na voz do cantor Luiz de Carvalho, diz assim: “Creio em ti ao ver que a chuva cai e faz a flor nascer. Creio em ti, pois sei que enquanto é noite aqui, é dia ali. Creio em ti porque me deste o riso e a dor, me deste o amor, o teu amor. Creio em ti, creio em ti. Se a paz sobre nós seu véu tecer, eu creio em ti. Se a tempestade a terra abalar eu creio em ti. Cada vez que neste mundo eu escutar alguém cantar, alguém chorar. Direi então: Creio em Ti!”.

Talvez seja importante dizer que mesmo sabendo que é preciso confiar e que a fé independe das circunstâncias, como sugere a música, crer não é algo tão simples assim. Às vezes, é muito difícil crer. É difícil principalmente quando é “noite” aqui. Quando a escuridão atinge a vida, quando os olhos se escurecem para a luz da aurora, quando o coração se adoece diante do medo das sombras da tenebrosidade e a fé claudicante não consegue se por de pé ou enxergar uma luz, qualquer que seja. É difícil crer, sim. É difícil crer quando a dor aguda traspassa a alma, quando a tempestade se agiganta diante das nossas vistas e as vagas procelosas afogam os nossos sonhos. É difícil crer quando as lágrimas do desespero marejam os nossos olhos, quando o chão é tirado de sob os nossos pés ou quando nuvens de escuridade se formam sobre a nossa cabeça. É difícil crer.

  É difícil, mas é preciso. Por isso é necessário dizer: eu creio, sim! Crer não é fraqueza, languidez ou fuga cega diante dos desafios, mas é depositar em Deus e no

seu Cristo a confiança e não desesperar diante das lutas e revezes. Crer é afirmar que o universo, a vida e a história estão em boas mãos, em santas mãos. Crer é dizer como disse o salmista: “Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem nos seios dos mares; ainda que as águas tumultuem e espumejem e na sua fúria os montes se estremeçam. Há um rio, cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo. Deus está no meio dela; jamais será abalada; Deus a ajudará desde antemanhã” (Sl 46.2-5).

Crer é ainda confiar que aquele que não poupou o seu Filho, antes por nós o entregou, nos dará graciosamente com Ele todas as coisas (cf. Rm 8.32).Ainda que o mundo despeje uma avalanche de ideias contrárias à minha fé, eu creio sim. Ainda que os valores cristãos sejam negados até mesmo por quem deveria defendê-los, eu creio sim. Ainda que a moral cristã seja atacada sem dó, eu creio sim. Ainda que a minha  herança  evangélica  seja  ridicularizada  e colocada em cheque, eu creio sim.

Ainda que as sombras da noite se aproximem e o mar bravio nos ameace com os seus “tsunamis”, eu creio sim.

Creio, pois sei que Deus não perde o controle da história. Creio porque Cristo se assenta no trono da Sua glória. Ainda que o tempo seja difícil, que o inferno lute com todas as suas forças, que a família seja ameaçada, que os jovens sejam cortejados pelo maligno, que as leis dos homens sejam falhas, que o governo se desgoverne, eu creio sim. Creio porque os meus olhos estão postos em Deus. Creio, pois sei que Ele está entronizado acima dos querubins. Creio porque o Senhor de minha vida é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim. É Ele quem tem as “chaves” e são elas que abrem e fecham as portas da vida e da morte, do céu e do inferno e da história. Creio, ainda que seja pequena a minha fé. Creio e peço a Deus que me ajude aumentando a fé que tenho, fortalecendo-a todos os dias e fincando-a na rocha que é Jesus.

  Eu creio não na vida e nem em mim. Eu creio em Deus e na força do Seu poder. Creio naquele que foi morto, mas vive eternamente por mim. Creio, sim! Mas peço ainda: “Senhor, ajuda-me na minha falta de fé” (Mc 9.24).

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)

A justiça perdida

Por Reverendo Célio Teixeira Júnior*

O compositor cristão perguntou: “Onde andará a justiça outrora perdida?” Esta pergunta nos faz pensar na grande dificuldade que temos hoje de poder encontrá-la. Se, como diz a Bíblia, o efeito da justiça é a paz (Is 32.17), e a paz anda escassa é porque, por dedução lógica, a justiça também anda sumida.

Ao definirmos justiça como a qualidade do que está em conformidade com o que é direito, com o que é justo, e pensarmos também no fato de que justiça significa um relacionamento correto com Deus, com o próximo e com nós mesmos, então, com certeza, a justiça se perdeu em algum lugar.O resultado é funesto, terrível e desanimador. Por isso, antes de tudo, é preciso a justiça, procurá-la até que ela seja encontrada e, assim, então, o resultado colhido será a paz.

Antes de falar sobre como encontrá-la, quero apontar alguns desses resultados que eu chamo de funestos. O primeiro deles é a ação prevalecente do fraudulento. Este é aquele que maquina o mal, que desanda a boca contra a verdade, que procura tirar proveito próprio, que não mede esforços para enganar o povo, que mente com facilidade, que rouba o direito do pobre, que promete e não cumpre, que tem duas caras e que perdeu a capacidade de se envergonhar dos seus próprios erros.

O segundo resultado eu chamo de alienação. Às vezes se acha por aqui que um pouco de pão na mesa das pessoas resolve a questão. Sei que a causa do pobre é justa e que a fome é um desafio premente, mas precisamos ter cuidado para não criarmos uma sociedade de pessoas indiferentes, alienadas e superficiais demais. Guimarães Rosa disse certa vez que o “animal satisfeito dorme”. Sendo assim, nenhum projeto social, por mais nobre que seja, pode ser um causador de uma espécie de sonolência mórbida que nos impede de enxergar a ausência da justiça e as questões sérias que precisam ser tratadas com mais profundidade.

O terceiro resultado é uma espécie de despreocupação pecaminosa. E aqui eu falo, não dos projetos sociais, da mesa do pobre, mas da sociedade consumista, interesseira, intimista e exageradamente preocupada com sua própria prosperidade material. A despreocupação pecaminosa é a preocupação com as coisas fúteis, supérfluas, vazias e ocas. Quando a justiça se perde a linguagem é desconexa, a cultura é do big brother, a canção que se ouve é vazia e sem poesia. Não temos percebido que, com tudo isso, todos nós, indistintamente, colheremos frutos amargos por termos notado, talvez, tarde demais, a ausência da paz.

Quero fazer-lhe uma sugestão: que se mude a questão. Que a justiça outrora perdida seja encontrada, e que a paz tão sonhada possa fazer morada. Não falo aqui de uma paz que implica em ausência de desafios como se fosse uma espécie de paz do cemitério, mas a paz de relacionamentos corretos e da conduta certa. Faço então um convite para que juntos nos lancemos nessa procura e que não descansemos até que a justiça seja encontrada.

É preciso entender, então, antes de tudo, que a justiça real e verdadeira tem relação com uma pessoa: Jesus de Nazaré. Que se comece com Ele e por Ele, tendo-o como Salvador e Senhor de nossas vidas, pois “feliz é a Nação cujo Deus é o Senhor”. Mas, além disso, precisamos nos lançar em projetos nobres. Procurar a justiça é agir com verdade e transparência. É fazer a vida ficar mais bela em coisas simples do dia-a-dia. É tolerância zero para mentira e para falsidade. Um projeto nobre não precisa ser mirabolante, extravagante ou dispendioso. Ele precisa, sim, começar dentro de casa, com educação, respeito e honestidade.

Por fim, eu diria também que é preciso orar pela justiça. Quem sabe, agindo assim, a justiça perdida seja encontrada e a paz tão almejada seja desfrutada.

  • Célio Teixeira Júnior é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Lavras (MG)