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A arte de desfazer

Por Rev. Célio Teixeira Júnior*

O dicionário define arte como sendo, dentre outras coisas, a “capacidade que tem o ser humano de pôr em prática uma ideia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria”. O conceitode arte, frequentemente, é positivo e não negativo. Arte é uma atividade que supõe criação. Ao falar, então, como é a proposta aqui, da arte de desfazer, pode parecer um contrassenso e umaenorme contradição. Mas não é e eu explico o porquê.

A arte de desfazer envolve, de uma forma ou de outra, sensações profundas e pode estar carregada de sentimentos conflitantes que revelam até mesmo um estado de espírito estético, baseado em uma vivência pessoal que leva à uma questão perturbadora: Quero continuar mantendo o que pretendo desfazer ou desfaço do que em outro tempo já me foi bom e útil e de grande serventia?

Ao analisar esta questão, então, penso que, de fato, trata-se de uma arte e não simplesmente de um gesto impensado, displicente ou aleatório. Eu digo isso porque, às vezes, é preciso se desfazer, sim, de objetos e coisas que nos prendem ao passado, que são parte de uma história que não volta mais, e que mantê-los como estão, adoecem o coração, paralisam a ação e nos torna fechados, enclausurados em mundo irreal, ilusório, fantasioso e prejudicial. Quem nunca se desfaz de nada corre o risco de se mergulhar na síndrome dos que são chamados de acumuladores.

Talvez seja importante não desfazer somente do que nos é útil no presente e nos será no amanhã. Mesmo que seja um quadro na parede, uma fotografia no porta-retratos, ainda que nos prendam no passado, podem ser também um exercício de boa memória, de uma santa nostalgia que faz bem para alma e para o coração. Objetos que podem ser também uma boa peça de decoração e com um ajuste ou outro, sem cair de moda, podem, esteticamente, cair bem em qualquer parede ou em qualquer ambiente.

O que você e eu não podemos fazer é guardar o que nunca será usado, o que só serve para adoecer, para tomar o lugar do novo, para encher gavetas, sobrecarregar armários e acumular nas prateleiras. É preciso deixar para trás o que não serve mais e o que caiu no desuso. E aqui é importante lembrarmos de que a nossa vida ao lado de Cristo deve ser assim: “As coisas antigas já passaram, eis que se fizeram novas” (2Co 5.17). Isso não significa que vamos nos desfazer de tudo, mas, sim, de tudo o que não convém levar para quem segue na vida os passos de Jesus.

Os filhos de Deus precisam aprender, à luz das Escrituras Sagradas, a praticar a arte de desfazer. Jovens crentes que se unem pelos laços do matrimônio precisam se desfazer da vida de solteiros, da influência controladora dos seus pais e precisam aprender a construir uma vida a dois, formando assim um novo lar (Gn 2.24). Homens e mulheres, filhos de Deus, precisam se desfazer de gestos, palavras, comportamentos e até de ornamentos que não lhes são de bom testemunho como cristãos. Precisamos nos desfazer da “roupa suja” que faz parte de nossa velha natureza e que não convém a santos (Ef 4.22-24; Cl 3.5-11).

O que define a nossa prática na arte do desfazer não são os valores do mundo e a mentalidade da época. A Bíblia, que é a Palavra de Deus, é a nossa única regra de fé e de prática. É sob autoridade dela que devemos fazer as nossas escolhas e devemos manter o que é justo e bom ou jogar fora o que já não nos convém mais como servos do Senhor Jesus. Além disso, é importante também ressaltarmos que, dentre estas realidades, algumas são neutras ou adiáforas (indiferentes) em si. A arte de se desfazer delas, eu diria, precisa passar pelo crivo da
utilidade, se elas são boas ou não para edificação e se contribuem para o nosso bem-estar e daqueles que estão ao nosso redor.

Por fim, é importante ressaltar que tudo que precisa ser desfeito ou mantido tem que se encaixar, por assim dizer, na moldura da glória de Deus e da gratidão (1Co 10.31; Cl 3.17,23).

  • Rev. Célio Teixeira Júnior é pastor da Igreja Presbiteriana de Jaú (SP).
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