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Quem é o Senhor do tabuleiro?

(Pastor da Igreja Presbiteriana de Menlo Park – Califórnia)

Talvez nenhum ser humano, antes ou depois de César, tenha detido tanto controle, e um controle tão firme, sobre tantos no mundo inteiro durante tanto tempo. “Saiu um decreto…” Bastou ele levantar um dedo, proferir uma palavra e o mundo todo se mexeu para obedecê-lo.

Sim, diz Lucas, o historiador, observe o que acontece a seguir. Agora as coisas começam a ficar interessantes. O escritor Tom Wright diz o seguinte: “Esse homem, esse rei, esse monarca absoluto ergue o dedo em Roma e a mais de dois mil quilômetros de distância, em uma província obscura, um casal pobre empreende uma viagem arriscada, por capricho de um rei”. Observe o resultado: uma criança nasce em uma cidadezinha que, aliás, por pura coincidência, acontece de ser aquela mencionada em uma antiga profecia hebraica sobre a vinda do Messias (v.  Miquéias 5.2).

A profecia afirmava que o Messias nasceria em Belém. Mas José e Maria não viviam em Belém. Jamais iriam até lá. A não ser que… “E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte de César Augusto…”.

Aconteceu por quê?

César responderia que foi porque ele assim o quis. César decretou. César detinha todo o controle. No entanto, Lucas levanta uma questão: que rei está no comando aqui? A vontade de quem está sendo feita de verdade? Quem é de fato o senhor desse tabuleiro?

Essa é na realidade a história de duas cidades. Roma é palco de um tipo de reino, paz e glória. Belém é um reino de outro tipo. Dinheiro, soldados, palácios, títulos, o passeio de tábuas junto ao mar, Estacionamento Livre, tudo isso fica em Roma. Belém era só estábulos, manjedouras, mulas e pastores.

E no entanto, não era em Roma que anjos cantavam, mas sim em Belém.

César imaginava seu trono em Roma tão seguro quanto um trono o pode ser. Acontece que o reino estava alojado em uma manjedoura em Belém.

César pensava que era senhor do tabuleiro.

Essa ilusão de “senhor do tabuleiro” costuma durar até que algum evento externo incontrolável para nós a perfure.

Em geral, quando tudo vai bem é que nos sentimos mais aptos para engolir a ilusão de que controlamos alguma coisa. Quando Israel estava prestes a entrar na terra prometida, Moisés advertiu o povo:

“Não aconteça que, depois de terem comido até ficarem satisfeitos, de terem construído boas casas e nelas morado, de aumentarem os seus rebanhos, a sua prata e o seu ouro, e todos os seus bens, o seu coração fique orgulhoso […]. Não digam, pois, em seu coração: ‘A minha capacidade e a força das minhas mãos ajuntaram para mim toda esta riqueza’. Mas, lembrem-se do Senhor, o seu Deus, pois é ele que lhes dá a capacidade de produzir riqueza” (Deuteronômio 8.12-18).

A realidade deste mundo é que nasci no reino de Outra Pessoa. A vida me foi dada como um presente que não escolhi; pende por um fio que não teci nem posso suster por mim mesmo. “Muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor”. (Provérbios 19.21)

De modo que precisarei renunciar à posição de mestre do tabuleiro.

Rendição não é passividade ou resignação. É dizer sim para Deus e a vida a cada dia. É aceitar os dons que ele me dá – corpo, mente, biorritmos, energia. É abrir mão da minha inveja ou desejo daquilo que ele deu para outra pessoa. É abrir mão de resultados que na verdade não posso receber, de qualquer modo. Entrego minhas ambições, sonhos, dinheiro, relacionamentos, status matrimonial, tempo e desejos a Deus.

Render-se quer dizer abrir mão do senhorio completo da minha vida. Contudo, não sou chamado para fazer isso de má vontade.

Uma pessoa pode render-se a alguém mais forte, ou um exército a outro mais poderoso. Alguém pode render-se a Deus por ele ser todo-poderoso. Nada disso é rendição plena. Só quando se vivencia que Deus é bom passa a ser possível a rendição incondicional a ele de coração, alma e ser inteiros.

Sendo eu criatura e não Criador, rendição é na verdade um caminho melhor para jogar. Pois não sou senhor do tabuleiro. A rendição me abre para receber a benção de Deus.

Um dos problemas que a ilusão de ser senhor do tabuleiro acarreta é que, por insistir que sou inteligente o bastante para planejar minha vida, fecho-me para surpresas maravilhosas. Com frequência nossos esforços para controlar resultados nos prejudicam mais do que qualquer coisa que qualquer pessoa poderia fazer.

Quando tento controlar algo com rédeas curtas demais baseado em minhas próprias e limitadas ideias, escapa-me toda a criatividade e dom de atrair coisas boas da vida.

Um problema mais profundo quando tento ser senhor do tabuleiro é que isso me põe em uma situação desconfortável com outras pessoas. Quando vivo no mito do controle, os outros são um problema. Não se comportam do jeito que quero, de modo que tento encontrar como manipulá-los, apaziguá-los, adulá-los, intimidá-los ou controlá-los.

“E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da minha parte…”

Entro em meu local de trabalho: as coisas são administradas do meu jeito, meus projetos têm sido concluídos, as tarefas que repasso têm sido executadas. O que isso significa? Significa que estou no comando. Esse é o meu pequeno reino.

Entro no quarto dos meus filhos: as camas estão arrumadas da maneira exata como prescrevi, as tarefas domésticas são executadas como mandei. O que isso significa? Significa que estou no comando. Esse é o meu pequeno reino.

Entro em casa no final do dia: meus chinelos estão dispostos ao lado da minha poltrona predileta, meu chá gelado está pronto, meu jornal me aguarda, meu jantar esquenta no forno. O que isso significa? Significa que entrei na casa errada.

Epiteto escreveu: “Se você acha que tem as rédeas soltas em assuntos que fogem ao seu controle naturalmente, ou se tenta puxar para si questões que lhe são alheias, encontrará obstáculos a seu intuito e se tornará uma pessoa frustrada, ansiosa e crítica”.

Jesus ensinou em várias oportunidades sobre essa estranha verdade de que o poder nos sobrevém não quando buscamos o controle, mas quando entregamos com liberalidade nossos pequenos centros de controle a Deus. Explicou que, se um grão de trigo permanecer só, não dará fruto, mas, se for depositado no chão e morrer, então viverá. Que, se negarmos a nós mesmos, seremos satisfeitos. Que, se buscarmos salvar nossas vidas, nós a perderemos, mas, quando a perdemos por causa dele, então vivemos.

Em todas essas expressões, na verdade, recebemos mais poder pela rendição.

Confiar em Deus significa aprender a deixar as coisas acontecerem a cada momento, de modo que eu esteja livre para viver o próximo. Não existe um chamado em minha vida que me faça tentar controlar pessoas ou resultados. Simples assim. Alguém muito melhor já se ocupa desse trabalho.

É por isso que nunca deixo as questões envolvendo controle fora da parceria com Deus. Preciso chegar ao ponto de confiar que ele está de fato cuidando de mim e é perfeitamente capaz de supervisionar o cosmos.

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