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Arquivo mensal: outubro 2013

31 de Outubro – Dia da Reforma Protestante

No início do século XVI, o monge alemão Martinho Lutero, abraçando as ideias dos pré-reformadores, publicou três sermões contra a “venda” do perdão total ou parcial dos pecados (indulgências), em 1516 e 1517. Em 31 de outubro de 1517, Lutero pregou as 95 teses contrárias ao papado, na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, com um convite aberto ao debate sobre elas. Esse fato é considerado como o início da Reforma Protestante. 
 
A REFORMA foi um movimento que visou trazer a Igreja à pureza original do Cristianismo segundo o Novo Testamento.
 
Depois do Pentecoste, a Reforma do Século XVI foi o maior movimento espiritual ocorrido no cristianismo.
 
Representou uma volta a Bíblia, ao ensino dos apóstolos e, por isso, a rejeição total a qualquer doutrina sem base nas Escrituras.  
 
Os pilares da reforma, são os 5 solas: Sola Fide (Somente a Fé) – Sola Scriptura (Somente a Escritura) – Solus Christus (Somente Cristo) – Sola Gratia (Somente a Graça) – Soli Deo gloria (Somente a Deus a glória).
 
Um martelo + um prego + uma convicção motivada pelo Espírito Santo, e Martinho Lutero mudou o mundo. Feliz Dia da Reforma!
 
 Fonte da citação: Monergismo
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O pecado e o coração regenerado

O Bispo J.C. Ryle certa feita disse:

“Uma pessoa nascida de novo, ou seja, regenerada, não comete o pecado como um hábito. Não peca mais com seu coração, sua vontade e toda a sua inclinação natural, como o faz a pessoa não-regenerada. Havia um tempo em que ela não se preocupava com o fato de que suas atitudes eram pecaminosas ou não, um tempo em que não se entristecia após fazer o mal. Não havia qualquer luta entre ela e o pecado; eram amigos. Agora a pessoa nascida de novo odeia o pecado, foge dele, combate-o, considera-o sua maior praga, geme sob o fardo da presença dele em seu ser, lamenta quando cai diante da influência do pecado e deseja intensamente ser completamente liberta dele. Em resumo, o pecado não lhe causa mais satisfação, tampouco é algo para o que ela se mostra indiferente. O pecado tornou-se para a pessoa nascida de novo uma coisa abominável, que ela detesta. Ela não pode evitar a presença do pecado. Se disser que não tem pecado, não haverá verdade em suas palavras (1 Jo 1.8). Mas a pessoa regenerada pode afirmar com sinceridade que odeia o pecado e que o grande desejo de sua alma é não mais cometê-lo, de maneira alguma. O indivíduo regenerado sabe, conforme o disse Tiago, que “todos tropeçamos em muitas coisas” (Tg 3.2). Todavia, ele pode afirmar com sinceridade, diante de Deus, que tais coisas lhe causam tristeza e aflição diariamente e que toda a sua natureza não as aprova”

As anti-aventuranças, como ensinadas por Satanás

por Stephen Altrogge
 
E Satanás, vendo a multidão que o seguia, desceu para o vale ressequido. E ele se pôs a ensinar, dizendo:
 
Bem-aventurados as pessoas extraordinárias, independentes, que “dão uma surra”, auto-suficientes, “Eu sou suficiente forte sozinha”, porque deles é o reino do inferno. 
 
Bem-aventurados os que não sentem tristeza pelo seu pecado, e que expressam um sentimento de arrependimento superficial e mundano pelas consequências do seu pecado, porque seus corações serão endurecidos.
 
Bem-aventurados os arrogantes, que fazem os outros cambalear, que fazem suas próprias leis, fazendo valer seus próprios direitos e que lutam pelos seus planos, porque eles herdarão o inferno.
 
Bem-aventurados os que são indiferentes à iniquidade em suas vidas e na iniquidade ao seu redor, porque, certamente, irão se fartar de pecado nesta vida.
 
Bem-aventurados são aqueles que não mostram nenhuma piedade, que exigem a correção de cada erro, que facilmente se ofendem, e que lutam contra seus oponentes com calúnias, fofocas e muita brutalidade, pois eles receberão o mesmo em troca.
 
Bem-aventurados são aqueles que permitem que impurezas se infiltrem em seu coração através de meios aparentemente inocentes, como a televisão, a internet, os relacionamentos e seus telefones inteligentes, pois não verão a face de Deus.
 
Bem-aventurados são aqueles que causam discórdia, criam divisão, apreciam a controvérsia, e coloca um contra outro, porque eles serão chamados filhos de Satanás.
 
Bem-aventurados são aqueles que conseguem evitam perseguições ficando em silêncio, evitando a santidade em público, pois terão grandes habitações no inferno.
 
Bem-aventurados sereis quando os outros pensam que você é fantástico, divertido, legal, que toma partido pelas coisas que eu defendo. Alegrai-vos e exultai, porque sua dor no inferno é grande, pois assim é o tratamento dispensado ao ímpio ao longo da história.

Não havia ferreiros em Israel, nem armamentos.

Wilma Rejane

Não havia nenhum ferreiro na terra de Israel naqueles dias. Os filisteus não permitiu-lhes por medo de que iriam fazer espadas e lanças para os hebreus. – 1 Samuel 13:19
 
Em uma época que territórios eram conquistados através de guerras, faltavam armas em Israel. A nação inimiga dos filisteus, mantinha o monopólio absoluto de fabricação e manutenção de todo material bélico e ferramentas de trabalho: foices, machados, relhas, sachos. Ironicamente, os filisteus ainda cobravam em siclos para realizar serviços de ferreiros para Israel. Essa passagem Bíblica é bem curiosa, ainda mais se lembrarmos que foi justo nesse período que o pequeno Davi venceu o gigante filisteu chamado Golias.
 
A fama dos filisteus fazia estremecer as nações em derredor e a superioridade militar deles, estava ligada justo a capacidade de trabalhar com metais, uma herança dos povos hititas. Assim, os filisteus que já levavam vantagem na estatura (gigantes), também eram imbatíveis em aparatos de guerra. Uma prova disso, pode ser dada observando a disputa entre Davi e Golias:
 
“Um guerreiro chamado Golias, que era de Gate, veio do acampamento filisteu. Tinha dois metros e noventa centímetros de altura. Ele usava um capacete de bronze e vestia uma couraça de escamas de bronze que pesava sessenta quilos; nas pernas usava caneleiras de bronze e tinha um dardo de bronze pendurado nas costas. A haste de sua lança era parecida com uma lançadeira de tecelão, e sua ponta de ferro pesava sete quilos e duzentos gramas. Seu escudeiro ia à frente dele.” I Samuel 17:4-7
 
E quais eram as armas de Davi? Cinco pedras lisas (seixos) e uma pequena bolsa de couro, tipo baladeira. I Samuel 17:40
 
Na casa do rei Saul havia equipamentos bélicos em pouca quantidade, suficiente apenas para dois guerreiros: “ Por isso, no dia da batalha, nenhum soldado de Saul e Jônatas tinha espada ou lança nas mãos, exceto o próprio Saul e seu filho Jônatas” I Samuel 13:22.
 
Saul e Jônatas, não se acharam com coragem de enfrentar Golias, até que aparece Davi e se dispõe a lutar, confiado não nas armas de guerra que lhe foram oferecidas pelo Rei, mas na fé no Nome do Senhor Deus. O final da história é bem conhecido: o pequeno herói ruivo, chamado Davi, vence o gigante. A partir daí seu nome recebe destaque em Israel e em todas as redondezas, ultrapassando os séculos e chegando até nossos dias com a lição de que: “ as armas humanas são inferiores e nada podem contra Deus. Agindo Deus, quem impedirá?” Isaías 40:10-13.
 
 E dessa narrativa sobre não haver ferro em Israel, traço algumas lições que podem bem servir para todos os tempos:
 
“Tu vens contra mim com espada, lança e escudo; eu, porém, vou contra ti em nome do Senhor dos exércitos, do Deus das fileiras de Israel, que tu insultaste.” Davi em 1 Samuel 17:45
 
  • Ainda que nos falte recursos materiais para enfrentar algumas situações, confiemos na providência Divina que é capaz de suprir além do que pensamos ou pedimos.
 
      • Existia o conhecimento de que Deus era com Israel para ganhar batalhas e por isso os filisteus temiam que o exército israelita se equipasse, aumentando o poder destrutivo. Assim, mantêm o monopólio e ainda lucram financeiramente com isso. Amados leitores, ao ler sobre isso, não pude deixar de relacionar com as estratégias usadas pelo maligno para desviar as pessoas do caminho da Salvação. O povo de Deus acaba “não amolando os instrumentos de guerra” e até ficando sem eles ao gastarem tempo e dinheiro com coisas que não edificam esquecendo as que realmente importam para Deus.
 
  • Israel precisava saber que a força para vencer batalhas, não estava nas armas, mas em Deus. Não ter ferreiros, poderia ser um entrave, um problema para os incrédulos. Para o povo de Deus, pelo contrário, deveria ser a oportunidade de glorificar ao Senhor e foi justo o que fez Davi. Ficou claro que nem todas as armas dos filisteus seriam capazes de derrotar um homem com a fé de Davi. As adversidades na vida do cristão podem servir de lamento e de murmurio, mas não deveria, porque nesses momentos, quando estamos fracos, então somos fortes, Naquele que batalha por nós. 

Quem é o Senhor do tabuleiro?

(Pastor da Igreja Presbiteriana de Menlo Park – Califórnia)

Talvez nenhum ser humano, antes ou depois de César, tenha detido tanto controle, e um controle tão firme, sobre tantos no mundo inteiro durante tanto tempo. “Saiu um decreto…” Bastou ele levantar um dedo, proferir uma palavra e o mundo todo se mexeu para obedecê-lo.

Sim, diz Lucas, o historiador, observe o que acontece a seguir. Agora as coisas começam a ficar interessantes. O escritor Tom Wright diz o seguinte: “Esse homem, esse rei, esse monarca absoluto ergue o dedo em Roma e a mais de dois mil quilômetros de distância, em uma província obscura, um casal pobre empreende uma viagem arriscada, por capricho de um rei”. Observe o resultado: uma criança nasce em uma cidadezinha que, aliás, por pura coincidência, acontece de ser aquela mencionada em uma antiga profecia hebraica sobre a vinda do Messias (v.  Miquéias 5.2).

A profecia afirmava que o Messias nasceria em Belém. Mas José e Maria não viviam em Belém. Jamais iriam até lá. A não ser que… “E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte de César Augusto…”.

Aconteceu por quê?

César responderia que foi porque ele assim o quis. César decretou. César detinha todo o controle. No entanto, Lucas levanta uma questão: que rei está no comando aqui? A vontade de quem está sendo feita de verdade? Quem é de fato o senhor desse tabuleiro?

Essa é na realidade a história de duas cidades. Roma é palco de um tipo de reino, paz e glória. Belém é um reino de outro tipo. Dinheiro, soldados, palácios, títulos, o passeio de tábuas junto ao mar, Estacionamento Livre, tudo isso fica em Roma. Belém era só estábulos, manjedouras, mulas e pastores.

E no entanto, não era em Roma que anjos cantavam, mas sim em Belém.

César imaginava seu trono em Roma tão seguro quanto um trono o pode ser. Acontece que o reino estava alojado em uma manjedoura em Belém.

César pensava que era senhor do tabuleiro.

Essa ilusão de “senhor do tabuleiro” costuma durar até que algum evento externo incontrolável para nós a perfure.

Em geral, quando tudo vai bem é que nos sentimos mais aptos para engolir a ilusão de que controlamos alguma coisa. Quando Israel estava prestes a entrar na terra prometida, Moisés advertiu o povo:

“Não aconteça que, depois de terem comido até ficarem satisfeitos, de terem construído boas casas e nelas morado, de aumentarem os seus rebanhos, a sua prata e o seu ouro, e todos os seus bens, o seu coração fique orgulhoso […]. Não digam, pois, em seu coração: ‘A minha capacidade e a força das minhas mãos ajuntaram para mim toda esta riqueza’. Mas, lembrem-se do Senhor, o seu Deus, pois é ele que lhes dá a capacidade de produzir riqueza” (Deuteronômio 8.12-18).

A realidade deste mundo é que nasci no reino de Outra Pessoa. A vida me foi dada como um presente que não escolhi; pende por um fio que não teci nem posso suster por mim mesmo. “Muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor”. (Provérbios 19.21)

De modo que precisarei renunciar à posição de mestre do tabuleiro.

Rendição não é passividade ou resignação. É dizer sim para Deus e a vida a cada dia. É aceitar os dons que ele me dá – corpo, mente, biorritmos, energia. É abrir mão da minha inveja ou desejo daquilo que ele deu para outra pessoa. É abrir mão de resultados que na verdade não posso receber, de qualquer modo. Entrego minhas ambições, sonhos, dinheiro, relacionamentos, status matrimonial, tempo e desejos a Deus.

Render-se quer dizer abrir mão do senhorio completo da minha vida. Contudo, não sou chamado para fazer isso de má vontade.

Uma pessoa pode render-se a alguém mais forte, ou um exército a outro mais poderoso. Alguém pode render-se a Deus por ele ser todo-poderoso. Nada disso é rendição plena. Só quando se vivencia que Deus é bom passa a ser possível a rendição incondicional a ele de coração, alma e ser inteiros.

Sendo eu criatura e não Criador, rendição é na verdade um caminho melhor para jogar. Pois não sou senhor do tabuleiro. A rendição me abre para receber a benção de Deus.

Um dos problemas que a ilusão de ser senhor do tabuleiro acarreta é que, por insistir que sou inteligente o bastante para planejar minha vida, fecho-me para surpresas maravilhosas. Com frequência nossos esforços para controlar resultados nos prejudicam mais do que qualquer coisa que qualquer pessoa poderia fazer.

Quando tento controlar algo com rédeas curtas demais baseado em minhas próprias e limitadas ideias, escapa-me toda a criatividade e dom de atrair coisas boas da vida.

Um problema mais profundo quando tento ser senhor do tabuleiro é que isso me põe em uma situação desconfortável com outras pessoas. Quando vivo no mito do controle, os outros são um problema. Não se comportam do jeito que quero, de modo que tento encontrar como manipulá-los, apaziguá-los, adulá-los, intimidá-los ou controlá-los.

“E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da minha parte…”

Entro em meu local de trabalho: as coisas são administradas do meu jeito, meus projetos têm sido concluídos, as tarefas que repasso têm sido executadas. O que isso significa? Significa que estou no comando. Esse é o meu pequeno reino.

Entro no quarto dos meus filhos: as camas estão arrumadas da maneira exata como prescrevi, as tarefas domésticas são executadas como mandei. O que isso significa? Significa que estou no comando. Esse é o meu pequeno reino.

Entro em casa no final do dia: meus chinelos estão dispostos ao lado da minha poltrona predileta, meu chá gelado está pronto, meu jornal me aguarda, meu jantar esquenta no forno. O que isso significa? Significa que entrei na casa errada.

Epiteto escreveu: “Se você acha que tem as rédeas soltas em assuntos que fogem ao seu controle naturalmente, ou se tenta puxar para si questões que lhe são alheias, encontrará obstáculos a seu intuito e se tornará uma pessoa frustrada, ansiosa e crítica”.

Jesus ensinou em várias oportunidades sobre essa estranha verdade de que o poder nos sobrevém não quando buscamos o controle, mas quando entregamos com liberalidade nossos pequenos centros de controle a Deus. Explicou que, se um grão de trigo permanecer só, não dará fruto, mas, se for depositado no chão e morrer, então viverá. Que, se negarmos a nós mesmos, seremos satisfeitos. Que, se buscarmos salvar nossas vidas, nós a perderemos, mas, quando a perdemos por causa dele, então vivemos.

Em todas essas expressões, na verdade, recebemos mais poder pela rendição.

Confiar em Deus significa aprender a deixar as coisas acontecerem a cada momento, de modo que eu esteja livre para viver o próximo. Não existe um chamado em minha vida que me faça tentar controlar pessoas ou resultados. Simples assim. Alguém muito melhor já se ocupa desse trabalho.

É por isso que nunca deixo as questões envolvendo controle fora da parceria com Deus. Preciso chegar ao ponto de confiar que ele está de fato cuidando de mim e é perfeitamente capaz de supervisionar o cosmos.

Religião envelhecida

“Quando a religião perde seu fervor e se torna estereotipada, o adorador passa a viver em um nível em que a fé é muito fraca e diluída demais para conduzir a qualquer despertar interior. Em vez de apelar ao eu mais profundo, a religião que assim envelheceu se contenta em animar as emoções inconscientes do eu exterior.” Thomas Merton

Esquerda direita, esquerda, direita

por Wadislau Martins Gomes

A cantiga ia assim: “Marcha soldado, cabeça de papel…” Tem crente, agora, cantando assim: “Marcha cristão, cabeça de papel; quem não for à parada também não vai pro céu”. Parece coisa de criança – e é! Em um contexto que parece diferente, mas que de fato tem tudo a ver com a política dos homens e a política Deus, Paulo disse: “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino” (1Co 13.11). Tem tudo a ver, digo, porque os crentes corintianos estavam travando disputas políticas segundo a visão dos homens. Os temas da correspondência de Paulo batem  nos mais diversos pontos: sabedoria vs. poder, pecado e punição vs. disciplina bíblica (isto é, ensino, correção, repreensão e reeducação – ou corte), marido vs. esposa, sexo no casamento vs. satisfação carnal, cerimônia de comunhão com Cristo vs. sociabilidade degenerada, e princípios de fé, verdade e amor vs. jogos de palavras.

O evangelicalismo de agora (diferente da teologia reformada) confunde muito fé e obras, justificação e santificação com reivindicação de justiça humana por meio de virtudes e leis humanas, e missão de Deus com missão da igreja. Isso ocorre em quase todos os termos da experiência cristã, da esfera da política governamental à esfera da política eclesiástica. Só como exemplo, quando  menino ouvi que eu não podia dançar porque era protestante. Depois, aprendi que os missionários vindos do leste norte-americano tinham a dança como pecado, ao passo que, os do oeste, não podendo ceder à menção bíblica à dança correta como expressão da alegria do Senhor, fizeram um conchavo político e “inventaram” as brincadeiras de mocidade. Para dentro e para foraÉ ladrão, sim, é ladrão, e a portuguesa Comadre, ó minha comadre, aí eu gosto da sua pequena (os mais jovens que me perdoem o anacronismo), tudo isso era dança de quadrilha.

De carona na dança, lendo e ouvindo falar do “dois pra lá, dois pra cá” do bolero político da esquerda e direita, um cristão honesto poderá se sentir como velho no meio do salão tentando mimicar coisa moderna. E olha que a figura não sugere centro, não, exceto que, com os braços descontrolados e os quadris torcidos desmentindo o acerto do movimento deixa-o como que desnudo no meio do salão.

Sem jeito, meio perdidos nos salões políticos do século, muitos cristãos se apaixonam, uns pelos destros, outros pelos canhotos, e seguem na contramão das paradas populares. Isso é relevante, especialmente hoje com a “descoberta” da manifestação popular, uma vez que, quer queira quer não, o crente não é um circunstante neutro na arena política. Como sal da terra e luz do mundo, ele precisa ter uma cosmovisão bíblica e uma palavra profética.

Primeiro a gente tem de entender a origem dos termos. Na Revolução Francesa, 1789, aAssembleia Nacional se dividiu entre apoiadores do rei à direita e os da revolução à esquerda. Hoje, popularizados, os termos pretendem descrever a esquerda como sendo formada de pessoas favoráveis ao “movimento” e, a direita, os defensores da “ordem”. Grosso modo, a direita seria composta de conservadores, meritocratas, capitalistas. A esquerda seria de progressistas, liberais, comunistas etc., e o centro, de moderados (sambando ora com a direita ora com a esquerda). É dislexia política mesmo! Sabe? É como o moço, no banco de trás do carro, dando direções ao motorista: “Vira pra lá”. “Pra lá onde?” “Direita” (ou esquerda); quando o carro ameaça a um dos lados, ele corrige: “A outra direita” (ou esquerda), e o motorista irritado, “Vê se fica centrado, meu!” Já viu isso? Esquerda ou direita de onde? Centro de quê?

É o seguinte: (1) o cristão crê que todas as coisas tem seu ponto de referência em Deus (teo-referência, segundo Davi Charles Gomes) de quem deriva toda autoridade; (2) em todas as coisas o cristão deve ser, pensar e agir de modo cristocêntrico, pois o Senhor está sempre presente em todos os afazeres dos homens; e (3) o cristão deve viver sob o controle do Espírito que aplica a Bíblia ao coração para testemunho da glória de Deus ao mundo. O princípio bíblico da oposição (luz é luz e treva é treva ou mal é mal e bem é bem) foi abandonado por nossos primeiros pais em função da síntese do pecado (mal com bem dá “bal” ou “mem”), e trouxe à baila o princípio da maldição, uma política de luta de poder: “o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3.16). Nesse sentido, políticas de direita, esquerda e centro referem-se a posições opostas à referência em Deus, à centralidade de Cristo e à direção do Espírito na Palavra. Veja o texto bíblico:

Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas. Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles. Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá. Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião. Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão. Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir, juízes da terra. Servi ao Senhor com temor e alegrai-vos nele com tremor. Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que nele se refugiam (Salmos 2.1-12).

Segundo, a gente tem de entender o nosso momento. O mundo que viu a guerra fria vê agora uma coisa que não é fria nem quente. Certo que tanto a “direita” quanto a “esquerda”, sendo políticas humanistas, sempre colocaram o capital e o social como porta-estandartes, mudando somente o samba enredo. O que deu foi um Samba do crioulo doido: “Foi em Diamantina, / Onde nasceu JK, / Que a princesa Leopoldina / Arresolveu se casá / Mas Chica da Silva / Tinha outros pretendentes / E obrigou a princesa / A se casá com Tiradentes” – e termina: “O trem tá atrasado ou já passou” (Sergio Porto; Demônios da Garoa). Hoje, por força da incongruência do método dialético hegeliano – sempre há uma situação, a tese, que sofre a ação de forças opostas, a antítese, que gera uma condição melhor que a anterior, a síntese – imposta à quase totalidade do pensamento moderno, a direita capitalista incorporou doutrinas socialistas e o socialismo foi levado a se utilizar do capitalismo. Não tinha outro jeito. No entanto, não se engane, pois, como dizem patriotas ou companheiros, a luta continua, e o povo na estação nem se dá conta dos trens que prosseguem em trilhos e direções diferentes: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6) e “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo” (Ef 2.1-2).

Terceiro, a gente tem de entender que o sistema da fé cristã tem perspectivas claras de justiça, política, relações individuais e sociais, economia, transformação e daí em diante – e esse sistema, sendo uma cosmovisão após a visão de Deus, isto é, de uma consciência divinamente despertada e iluminada, jamais é de esquerda, direita ou centro, mas vem do alto. O conceito geral dessa política do alto, com certeza, continuará deixando o cristão em uma posição desconfortável. Ele é nascido de novo pela ação transformadora do Espírito e sua vida é uma de transformação. Na verdade, se ele se conformar com este mundo, não provará a boa, perfeita e agradável vontade de Deus nem verá a si mesmo e à sociedade tal como Deus quer que ele veja (ver Rm 12.1-4ss). Entretanto, essa inconformidade não poderá ser manifestada como revolução, “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar” (1Sm 15.23). Em outras palavras, a revolução é uma tentativa “mágica” para mudar o mundo por meio de abandonar a confiança no controle, presença e autoridade de Deus, adorando e servindo a poderes humanos para obter transformação. Como, então, viver a justiça de Deus em um mundo decaído? Como viver em um mundo do qual fomos chamados e ao qual fomos enviados para proclamar a redenção por meio da proclamação verbal e do testemunho da vida? Como ser sal da terra e luz do mundo? O próprio Senhor instrui quanto à prioridade do caráter cristão como base para a ação política no mundo, em Mateus 5.1-18: “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; e ele passou a ensiná-los, dizendo”:

1. V. 3: Bem-aventurados os humildes [pobres] de espírito, porque deles é o reino dos céus. (Os princípios da política do reino de Deus somente são vistos e seguidos quando vêm de Deus e são recebidos na Palavra como vindos do alto e não procedentes da “sabedoria humana”.)

2. V. 4: Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. (O cristão é sensível às necessidades humanas e espera somente em Deus para satisfação de seus desejos e necessidades.)

3. V. 5: Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. (Mansidão não significa fraqueza, mas a força de caráter que espera no poder de Deus para viver o reino de Deus na terra. Implica em viver o cumprimento dos próprios deveres e lutar pelos direitos do próximo.)

4. V. 6: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. (Revoltas não satisfazem a alma, pois a ira é como um saco sem fundo que sempre quer mais; no entanto, o cristão anseia todo o bem que há em Cristo como bênção também para a vida que é agora; ver Fm 1.6.)

5. V. 7: Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. (Toda ação cristã deve de ser motivada pelo coração de Deus, e não pela revolta humana, a fim de produzir resultados segundo o coração de Deus.)

6. V. 8: Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. (A única maneira de conseguir a transformação necessária para viver e pregar a justiça e o direito de Deus é por meio da confissão feita em fé diante de Deus mediante a obra de Cristo que nos purifica e habilita para cumprir a missão de Deus entre os homens.)

7. V. 9: Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. (O mundo só nos verá como filhos de Deus se nossa vida e palavra forem de paz e não de guerra.)

8. V.10-12: Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vósBem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céusRegozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. (A disposição do cristão não é uma de ser aceito pelo mundo quando luta em seu favor, mas de aceitar a posição de Cristo, de ser alvo de contradição – ver Lc 2.34 – certo de que a recompensa está no céu.)

9. Vv. 13-16: Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. (A meta do cristão é refletir a glória de Deus em seu caráter, como sal da terra e luz do mundo; não é uma ação opcional, mas sim fruto do Espírito que abençoa o lugar em que sua árvore está plantada; ver Sl 1.)

10. V. 17,18: Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. (Assim como o Senhor Jesus Cristo cumpriu plenamente a lei em nosso lugar e em nosso favor, assim também o cristão, habilitado pelo Espírito, obedece graciosamente a Palavra de Deus para que sua vida e suas palavras sejam vistas e ouvidas como testemunhos de uma verdade que não passa. Os movimentos humanistas de direita, esquerda e centro podem passar, mas o ponto de referência em Deus, a centralidade de Cristo e o selo do Espírito Santo no homem interior e em suas relações com o próximo e o mundo, estes sempre terão valor eterno.