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E por que os calvinistas não orariam?

Por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pensar que a soberania e a fidelidade de Deus à nosso favor dispensa a oração, seria uma errônea conclusão que alguém facilmente chegaria se não entendesse as doutrinas da graça. Os reformados são conhecidos por crerem num sistema que ensina o soberano decreto de Deus como a expressão da sua perfeita vontade, ou as determinações eternas de tudo o que é, do que foi, e do que será na criação, na história, e na salvação. É uma doutrina consistente em que vê o decreto e a oração não como forças contrárias, mas como causa e efeito, numa perfeita relação entre o Senhor e os seus servos.
 
A Escritura Sagrada ensina que Deus predeterminou tudo e, Ele mesmo nos estimula a orar por vários motivos. Nele esperamos o nascimento (Sl 139 15-16), o curso da vida (Jr 10:23), o controle sobre cada pensamento e palavra (Pv 16:1), o poder e a autoridade dos homens, bem como a sua incredulidade (Êx 9:16) e o desenfreio da impiedade (1 Pe 2:8). Ao evangelizar podemos orar por cada parte da salvação, incluindo o chamado (Rm 8:28), a fé daqueles que creem (At 13:48), as boas obras de santificação (Ef 1:3-4; 2:10), e a herança da glória (Ef 1:11). Também é possível orarmos por todas as coisas no céu e na terra (Sl 135:6-12).[1] Deste modo, confessamos pela oração que “o nosso Deus está nos céus; tudo faz segundo a Sua boa vontade” (Sl 115:3). 

A oração não funciona como um instrumento de manipulação dos caprichos ou necessidades humanas. Não somos nós que mudamos o eterno propósito de Deus com a nossa oração, mas Ele nos aperfeiçoa no cumprimento diário de Sua vontade em nós. R.C. Sproul esclarece que o mais importante, é que a oração é que nos transforma. Podemos envolver mais profundamente nesta comunhão com Deus e conhecer Aquele com quem estamos falando mais intimamente, e um crescente conhecimento de Deus é revelado ainda mais brilhante, e o que somos e a nossa necessidade é transformada, conforme Ele quer. A oração nos altera profundamente.[2]

Então, ao aplicar a sua graça, Deus desenvolve a sua salvação em todo um processo aperfeiçoando-nos por meio da sua providência. A nossa oração se relaciona diretamente com o governo de Deus e o desdobramento de sua vontade eterna. Não há o que questionar, pois sabemos que “é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele” (Fp 2:13, NVI).
Deus nos prepara para conceder àquilo que Ele quer nos dar. Ele cria a necessidade, nos dá percepção da nossa carência, concede-nos a fé necessária e confirma o seu amor providencial ao manifestar a sua vontade à nosso favor. Em tudo descobrimos a sua glória nos envolvendo numa ininterrupta dependência dEle. Calvinistas oram porque estão convencidos da riqueza da graça de Deus. O puritano John Owen percebeu que a principal finalidade da oração é estimular e despertar o princípio da graça, da fé e do amor no coração devido aos santos pensamentos de Deus. Aqueles que não têm este propósito na oração, realmente não sabem o que é orar. Uma constante assistência sobre este dever preservará a alma de uma estrutura onde o pecado não pode habitualmente prevalecer nela.[3]
Somente podemos orar capacitados pelo Espírito Santo. Paulo nos revela que “da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8:26, NVI). Isto significa que o Espírito Santo “garante a disposição e desejos, concede as palavras na boca, segue adiante delas, e causa-as para orar depois delas.”[4] O aspecto prático desta doutrina é que o exercício da oração sempre é surpreendente! Se entendêssemos e vivêssemos esta dinâmica não teríamos como desanimar de orar. Edwin H. Palmer nos afirma que se a nossa vida de oração é monótona e enfadonha, se é pesada, se sentimos que não estamos em contato com Deus, como se as nossas orações não chegassem a Ele, se não sabemos para que orar, se a oração não é um meio poderoso em nossa vida, então podemos recorrer ao Espírito da oração e pedir-lhe que venha a nossa vida, de forma mais plena, para ajudar-nos nesta debilidade. Se assim fizermos, com fé e esperança, Ele virá a nós e revolucionará a nossa vida de oração. Porque Ele é o segredo da oração, do mesmo modo que é o segredo de toda a vida santa. Sem Ele nada podemos fazer. Mas, com Ele podemos ser transformados e viver vidas que sejam espiritualmente ricas, ativas e alegres.[5]

Um calvinista vive a sua oração. Isto não significa que ele está constantemente de olhos fechados, mas que a disposição de sua alma continuamente está na dependência do soberano Deus. Nathaniel S. McFetridge observa que muitos homens possuem um compartimento onde está esta atitude em sua oração, e ela é desligada de suas vidas com o seu Amém, e quando se levantam de sobre os seus joelhos assumem uma atitude totalmente diferente, se não do coração, mas pelo menos da mente. Eles oram como se dependessem somente da misericórdia de Deus; entretanto, eles pensam – como se fosse possível enquanto viverem – como se Deus, em algumas de suas atividades menores, fosse dependente deles. O calvinista é o homem que está determinado a preservar o que ele recebeu em oração em todos os seus pensamentos, em todos os seus sentimentos, em tudo o que faz. Isto quer dizer que, ele é o homem que está determinado a fazer que a religião em sua pureza venha a sua plena retidão em seus pensamentos, sentimentos e vida. Este é o fundamento de seu especial modo de pensar, a razão pela qual ele é chamado um calvinista; e de igual modo especial age no mundo, a razão pela qual ele se torna a maior força regeneradora no mundo. Outros homens são calvinistas sobre os seus joelhos; o calvinista é o homem que está determinado que o seu intelecto, coração e vontade permanecerão sobre os seus joelhos continuamente, e a pensar, sentir e agir somente a partir deste fundamento. Calvinismo é, antes de tudo, aquela espécie de pensamento no qual vem a sua verdadeira atitude religiosa de dependência interna de Deus e humilde confiança somente em sua misericórdia para a salvação.[6]

Concluindo, podemos pensar que toda oração é essencialmente feita em três aspectos. Benjamin Palmer afirma que a oração é o apelo da criatura dependente; é o lamento do culpado pecador; e ainda, é a articulada adoração de uma alma inteligente. Sob o primeiro aspecto, Deus é considerado em sua relação natural como o criador e preservador de todas as suas criaturas. Sob o segundo, ele é contemplado em sua graciosa relação como o redentor e salvador dos pecadores. E por último, ele é adorado em sua consumada santidade e glória.[7]

É na busca da benção do Pai, pela mediação do Filho e testemunho do Espírito Santo que oramos. O Catecismo Maior de Westminster questiona – O que é oração? E a sua resposta é: oração é um oferecimento de nossos desejos a Deus, em nome de Cristo e com o auxílio de seu Espírito, e com a confissão de nossos pecados e um grato reconhecimento de suas misericórdias.[8] Não existe relação trinitária mais completa do que desfrutamos da oração como meio de intimidade com Deus. Por que calvinistas não orariam?

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